quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

hny!

Berlin. Faz uma semana que eu passo os meus dia apenas deslizando pelas calçadas desta cidade e respirando ar frio. Apenas experimentando as sensações. E é como ter David Lynch dirigindo o que eu vejo a todo o tempo. Todos os sentidos captando sinais muito intensos todo o tempo. A possibilidade de ser alguém diferente convivendo todo o tempo com o que eu sou agora. Basta pegar um ônibus. Fácil como andar uma estação de U-Bahn e baldear para uma linha de S-Bahn ou o contrário. E de repente perceber tudo o que você diz fazendo sentido na minha frente. É engraçado enxergar a metáfora da nossa própria vida durante um ato quase automático. Um ato que todo mundo faz com a cabeça em outro lugar, pensando no que veio antes ou no que vem depois. Eu não. Não mais. Mas esta é só mais uma das epifânias berlinenses.
Tem muito a ser descoberto aqui. E isso me parece cada vez mais quase infinito, porque os lugares que eu não conhecia e os que eu já conheço são a mesma coisa. Todos eles parecem novos porque me trazem uma sensação nova. De alguma forma, eles sempre serão novos. Eles me dão calma agora. Eu não tenho mais a ansiedade que eu já tive das outras vezes que estive nesta cidade. Porque é como se a cada passo eu entendesse que eu faço muito sentido aqui. E quando finalmente entendemos algo e temos certeza de algo não é necessário mais ter ansiedade. É só uma questão de tempo. Um dia você estará aqui. E possivelmente estaremos juntos. É só uma questão de tempo. Eu sinto um estranho relaxamento aqui. E talvez você entenda isso. É como se eu me dissolvesse na cidade. Esta cidade sou eu e eu sou esta cidade. Aqui é possível deixar de habitar mim mesma. Podemos nos esquecer um pouco e sair dos nossos próprios corpos sem estar em um lugar estrangeiro, sem sentir frio, nem medo. É leve estar aqui, porque podemos finalmente confiar no que há a nossa volta. Não precisamos ser responsáveis por tudo. Não precisamos nos proteger do que vem de fora. O entorno não é agressivo. A beleza dessa cidade é a nossa beleza. Todos entendem o que queremos. É possível se comunicar só com olhares. Não precisamos ouvir o nosso ipod o tempo todo porque o som ambiente é bom. Não precisamos cuidar o tempo todo para garantir o bom-senso e o senso estético. Estar aqui é como estar em nossa própria sala de estar.

Have a great new year full of good times!

ghosts


terça-feira, 30 de dezembro de 2008

doppelgänger


Flohmarket










Eu gosto de objetos. Porque acho que todos eles têm um potencial não instrumental. E isso não depende de Duchamp. Sempre foi assim, talvez não tenhamos percebido até então. Eles podem significar muitas coisas nas vidas das pessoas. Podem concretizar momentos, sentimentos, relações. Algumas vezes eles se personificam. Mas também podem apenas acumular o hábito de estarem na mesa de canto da mesma sala por anos. Ou apenas acumular poeira. Não importa. Gosto de objetos usados porque sei que cada um carrega uma história própria e desconhecida. Trazem sempre um mistério consigo. Uma espécie de alma talvez. Marcam um ponto no tempo e no espaço entre as possibilidades do que foram no passado e as possibilidades do seu futuro. Coisas inacreditáveis e improváveis são expostas nas bancas dos mercados de pulgas, esperando que alguém as olhe de um jeito diferente e lhes dê um novo sentido. Coisas que estão prontas para nascer de novo. Contrariando tudo o que foi enunciado sobre a lógica perversa da obsolescência das mercadorias. Os mercados de pulgas são pequenos focos de resistência. São sempre a promessa de uma nova vida, sem esquecer ou jogar fora o passado. Ao contrario, a partir e por causa dele.

domingo, 28 de dezembro de 2008

interrompo esse exílio do mundo para me lembrar que hoje morreu Delaney Bramlett. o cara que compôs Superstar. Superstar na voz da Caren Carpenter é das coisas mais bonitas.
tchau. 
um dia tudo vai ser uma coisa só. e vai ser lindo.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

domingo, 21 de dezembro de 2008

Dance, dance, dance!

Eu nunca tinha conhecido alguém da Sri Lanka. Anura e seu filho que é filho de um amigo dele foram os primeiros. Se a Sri Lanka é um lugar perdido no mapa mundi da sua parede, eu talvez tenha estado lá ontem. Fica na Stühlingenstrasse, número 9. Mas eu nem precisei verificar o número para achar. Naquele bairro escuro e silencioso, eu fui capaz de chegar no lugar certo apenas seguindo o calor do som. Na porta de vidro, o letreiro do restaurante de Anura dizia “salat und party express”. Eu nunca fui lá na hora do almoço, mas é bem capaz que a referencia à festa-express também se aplique à vida diurna daquele lugar. Eu não sei se na Sri Lanka as pessoas são místicas, mas eu já não duvido da capacidade de Anura de fazer milagres. De prolongar o entusiasmo da sexta-feira à noite para os almoços com tempo controlado dos dias de semana. Eu não me surpreenderia se me dissessem que ele pode parar o tempo entre meio-dia e meio e duas nos dias da semana para que os estudantes possam respirar um pouquinho do ar do seu pais antes de voltar para a universidade. Eu não duvidaria de nada depois do que foi sexta-feira neste lugar perdido no tempo e no espaço. Nesta noite, este era um restaurante sem mesas. E ninguém pagava pela bebida ou pela comida, de sabor incrivelmente exótico. Uma noite excepcional que se repete a cada quinze dias.O dia em que Anura cozinha para todos e chama os amigos para tocar música. O dia em que aquele pequeno restaurante que é também a sua casa se transforma no ponto cego do mapa do mundo. Um lugar em que não há distâncias entre lugares ou entre pessoas. Não há desconhecidos. Não há gravidade. E assim fica muito mais fácil dançar. Naquele lugar quente e de luzes coloridas, a jam começava com o africanos tocando um som que eu nunca havia sentido antes, numa língua que eu nunca havia ouvido antes, enquanto o chão impulsionava as minhas pernas. E os meus braços subiam harmonicamente para fazer movimentos engraçados no ar. Depois veio o som estranho que acompanhava o menino belga que tinha a voz do eddie vedder e a essa altura eu já estava dançando numa espécie de transe e pensando que dançar é o estado natural do meu corpo. Talvez dançar seja ao mesmo tempo o ato mais íntimo e mais social que possa existir. Porque se trata de encontrar a si mesmo em seu próprio ritmo. Encontrar a própria singularidade a partir dos sentimentos provocados pelas ondas do som e da luz e pelos movimentos daqueles que nos cercam. E quando conseguimos nos encontrar, isso significa que já estamos prontos para virar junto com esses outros uma massa vibrante de seres humanos que se comunicam de outra forma. Habermas não pode explicar tudo, porque não entendeu que dançar é comunicação social em sua forma mais livre. Liberta até mesmo das amarras da língua. E em seu estado mais intenso e verdadeiro. Porque quando nos mexemos quebramos as camadas de gesso que nos cobre e fazemos aparecer aos poucos a nossa verdadeira matéria. Carne e sensações, movimento e energia, vibração e pulsão. Algo acontece quando dançamos. Dentro e fora de nós. Não importa se estamos na sua sala ou na Sri Lanka. Descobrimo-nos seres que têm vontade de viver e recusam-se a ficar parados. Seres ao mesmo tempo tão iguais e tão diferentes fazendo o que podem com tudo o que lhes resta. Com o que mais importa.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

another day, just believe. another day, just breathe...

algumas imagens se repetem. o grupo de crianças do jardim da infância que atravessam a rua de mãos dadas. o velho de casaco azul-marinho que sobe pelo caminho da floresta todos os dias às 11 da manhã. a neve cobrindo a cidade de branco. eu chegar todos os dias na sala de leitura e ter uma conversa rápida sobre o tempo com kate. eu dar bom dia para os três poloneses, o chinês, o coreano, a iraniana e a alemã que sentam comigo. os dias começam sempre com a promessa de que serão equilibrados. de que tudo estará em seu lugar. de que as horas transcorrerão calmamente. de que as coisas serão como deveriam ser. ainda que eu não saiba direito como elas devem ser. todas as manhãs começam com eu acreditando que algo produtivo será feito assim que eu tomar a minha primeira xícara de café e verificar os meus emails. a minha turbulência interna está ainda adormecida e eu quase chego a acreditar que terei um dia fácil. eu tento me organizar. planejar. coloco ao meu lado os textos que pretendo ler. faço uma lista com os meus objetivos. desafio frontosamente a liberdade que acabei de conquistar. mas quando essa ameaça se apresenta alguma coisa acontece comigo. um tipo de efeito colateral inesperado. algo que soa como o despertador que eu deixei de usar. ou como a música alta que eu não posso ouvir enquanto trabalho nesta sala coletiva. eu nunca sei de onde virá o sinal dessa ameaça, diante da qual o meu corpo reagirá automaticamente. o conteúdo de algum email desinteressante que me chega. a nova exigência de um novo relatório que dirá coisas já ditas. às vezes a minha própria lista de afazeres toma a forma do perigo que minha auto-defesa saberá reconhecer. então eu sou capaz de ver uma espécie de força rebelde se instaurando aos poucos dentro de mim. algo que no início me ataca de modo sútil. que vai devagar minando a minha concentração. minando a minha determinação. vai pouco a pouco atingindo a base da minha auto-organização. e passa então a questionar o princípio de legitimidade das minhas próprias regras, dos objetivos que eu mesma havia estabelecido para o dia. uma a uma minhas certezas vão sucumbindo. outras coisas me parecem mais urgentes. mais necessárias. e eu me alegro com a constatação de que eu ainda posso me proteger. a paisagem me lembra que há muito a explorar aqui. o velho das onze horas e sua rotina são os figurantes perfeitos do cenário que eu crio para a minha guerra particular contra o tédio. eu de repente perco o controle sobre o meu próprio computador e meu mouse passa a percorrer livremente destinos não planejados. a tela em branco, quando se apresenta, exige também uma decisão crucial. um momento dedicado à comprovacao do livre arbítrio, pois ela é em si mesma a imagem da possibilidade. pode começar a ser preenchida de qualquer modo. uma palavra escrita dirá o destino do meu dia. eu poderia finalmente começar a escrever o texto dogmático que tenho prazo para entregar. mas quase sempre eu acho que vale a pena fazer algo diferente com a minha língua. algo que possa fazer mais sentido para mim mesma. então eu deixo a minha consciência decidir sozinha e minhas mãos agirem como quiserem. eu perco o interesse pelo controle e reajo instintivamente aos estímulos que me chegam de remetentes anônimos. quando uma pausa se faz necessária é sempre possível subir na cafeteria e começar uma conversa interessante com algum desconhecido de algum país longínquo. há sempre muito a se descobrir nos intervalos para o café. a essa altura do dia eu já dei tempo suficiente para que todas as minhas contradiçoes despertassem. eu tomei café suficiente para alimentá-las. eu ouço ruídos vindo de dentro de mim. eu sinto que se aproxima o momento em que eu declaro que o dia já está perdido. e isso quer dizer que eu cheguei a uma espécie de point of no return. eu não sei explicar muito bem o que determina que isso aconteça. talvez anoitecer às quatro e cinquenta da tarde ajude a colocar tudo a perder. ou a ganhar. a noite chega e sempre me surpreende. também é cheia de promessas. a identidade deste dia vai então se construindo com a consciência das horas perdidas e a promessa das horas que restam. logo esse será um momento irrepetível na sucessão do que ao final eu chamarei de vida. a personalidade desse dia então se extende retrospectivamente a partir da existência presente do passado. e às nove e cinquenta da noite eu finalmente chego à consciência de que as horas passadas sem controle durante o dia de hoje é ao mesmo tempo o fundamento e a causa do meu presente.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Each of us is matched somewhere in the world, by our exact double - someone who shares our thoughts and dreams


i don't know why but this time i'm feeling strange about your silence. maybe worried. maybe sad. maybe lonely. will you come back from your sheltered world only to say to me that everything is ok? would you say that i'm not alone in what i feel? maybe i'm just being egoistic...but in the end of the day there will be nothing left but our egos anyway. there's a lot of mess going on up here and you should know it. i'm just bored up here and you should know that also.

domingo, 14 de dezembro de 2008

Deep blogging

Há anarquia e caos dentro de mim. E momentos generosos de calma. Porque o caos não me assusta mais. Porque eu não me importo mais em não acreditar em nada. Em não ter certezas. Em não entender. Eu estou satisfeita com o que eu já entendi. Entendi que somos como um mar revolto de emoções, desejos, sentimentos e sensações. Inconstantes, inexplicáveis, explosivos. Pouco confiáveis. E lutamos com todas as nossas forças para impedir que toda essa turbulência transpareça. Liberamos diariamente parcelas bastante comedidas disso tudo, tentamos controlar seu fluxo, dar a impressão de que vivemos em um lago calmo. De que somos pessoas boas, cidadãos éticos, filhos gratos, parceiros compreensivos. Até quando viveremos nessa represa? Até quando precisaremos dela? Até quando seremos fantasmas de nós mesmos? Miniaturas tristes dos seres marinhos que nos habitam.
Eu cansei de ter sonhos agitados, naufragar nesse mar bravo todas as noites e acordar no dia seguinte como se fosse segunda-feira de manhã. Como se tudo o que eu precisasse fazer fosse tomar um banho quente, café da manhã e ir para o trabalho. Como se nada. Controlamos nossos impulsos, escondemos nossas potencialidades, disfarçamos a nossa raiva, em prol de uma pretensa necessidade de socialização. Em prol de nos mantermos pessoas funcionais. Alguém que trabalha em uma linha de montagem não pode querer desenvolver toda a sua criatividade. Deixamo-nos convencer pela idéia de que se todos pudessem desenvolvê-la livremente a reprodução material do sistema seria inviável. Mas eu duvido que morreríamos de fome ou de frio. Eu acho que deveríamos pelo menos tentar. Eu prefiro me alimentar de outra coisa. Prefiro socializações que não tenham o verniz de falsidade. E não me importo mais em inviabilizar o sistema. Ou ser declarada supérflua para ele. Eu não preciso deixar herança. Nem filhos. Há muita coisa que me parece não mais valer a pena. Esforços inúteis. Energia mal gasta. É preciso um pouco mais de coerência na vida. E menos medo de ser julgada. É preciso não mais ter que morrer às segundas-feiras de manhã.
De alguma forma eu cheguei a achar que se eu dissesse todas as coisas que eu penso sobre a vida e sobre o mundo e sobre mim mesma eu poderia ficar sozinha. Eu provavelmente tive medo de não ser amada. Porque eu poderia tornar árdua a tarefa de quem se habilitasse a. Eu poderia dizer coisas que machucassem quando eu fosse sincera. Eu poderia agir impulsivamente e me transformar em um ser irracional. Eu achava que seria mais difícil viver com tudo na superfície. Trazer para a luz do dia toda a beleza e a sujeira que há em mim. Coisas que não precisariam ser ditas. Perguntas que não temos tempo para responder. Um excesso de humanidade talvez. Pouco conveniente talvez. Mas quem tem o poder de dizê-lo? As pessoas que usam o meu nome no diminutivo e que se frustrariam ao não me encontrar doce e inocente? Eu achava que meus segredos eram indizíveis, até ter vontade de dizê-los todos. Os tabus me atraem e eu quero experimentá-los todos. Eu comecei a dizer coisas absurdas para você e você não deixou de me amar. Talvez não as tenha achado tão absurdas. Talvez só agora tenha começado a me amar de verdade.
The morning I’ll be with you, I’ll be a different king of person. I’ll be me.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008


She would never say where she came from. Yesterday don't matter if it's gone. While the sun is bright. Or in the darkest night. No one knows. She comes and goes. Good bye, Ruby Tuesday.Who could hang a name on you? When you change with every new day. Still I'm gonna miss you. Don't question why she needs to be so free. She'll tell you it's the only way to be. She just can't be chained to a life where nothing's gained. And nothing's lost at such a cost. Good bye, Ruby Tuesday. Who could hang a name on you? When you change with every new day. Still I'm gonna miss you. There's no time to lose, I hear her say. Cash your dreams before they slip away. Dying all the time. Lose your dreams and you will lose your mind.

Ain't life unkind?



quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Like a rolling stone

Eu sempre pensei na história de um homem que por algum estado mental perdesse a noção do tempo e o senso de realidade. Mas justamente por isso seria capaz de viver mais próximo da realidade que todos os demais. Quando assisti a Nowhere man no cinema eu pensei que esses dois filmes – o que existe e o que não existe ainda - poderiam um dia ser colocados lado-a-lado como imagens num espelho. O primeiro, um homem que perde a memória e a noção de si e deve redescobrir-se. O segundo, um homem que perde a noção do mundo, para ganhá-la. Eu acho que de alguma forma eu me transformei no segundo homem. Parei de ler jornais e de estabelecer compromissos com base em horários. Vivo meu tempo biológico. Não consulto mais a previsão do tempo, me contento em sentir os seus efeito sobre mim e sobre as ruas pelas quais caminho. Acordo quando não tenho mais sono e como só quando tenho realmente fome. O tempo real não joga um papel muito preciso na minha vida. Talvez eu esteja só descobrindo que ele sempre foi irreal. Algo que no fundo eu sempre soube, mas deixei que as pessoas chamassem esse conhecimento de incompetência para administrar o próprio tempo. Às vezes eu acho que atravessar a biblioteca para ir tomar água pode me tomar uma eternidade. E tenho preguiça de fazê-lo. Quando me concentro muito em uma idéia, entretanto, não percebo o dia passar. Pareço ficar parada no mesmo lugar do tempo enquanto a mesma idéia durar. Eu só percebo o tempo quando acontece de eu ver o ônibus 27 passando pela minha janela. Sei que ele percorreu muitas ruas antes de voltar a passar e imagino (sem poder comprovar) que isso deve ter lhe tomado algum tempo. Antes de entenderem o tempo como um processo, os homens achavam que ele era uma coisa. Pode ser. O ônibus 27 é o tempo para mim. Nunca se sabe quando terminaremos de dar a volta completa na história do conhecimento e finalmente voltar às noções antigas. Às coisas que já sabíamos. Como ter que sair da realidade para se aproximar dela. Nada é mais real do que o nascer do sol que eu estou vendo agora da minha janela, enquanto tomo a minha xícara de café quente, sem ler jornal. Nada é mais real do que ter que providenciar sozinha todos os itens necessários à própria sobrevivência. E deixar parte do dia ser consumido por isso. É como se não houvesse coberturas nem amortecimentos. Ninguém para ajudar ou dividir afazeres. Não há nada sobre a minha cabeça que impeça que todos os efeitos do tempo caia sobre ela. Nada matará a minha sede se eu não percorrer a biblioteca e chegar até a cozinha. Nada matará a minha fome se eu não realizar todos os passos que vai desde ir ao mercado até o cozimento dos alimentos. Nenhuma cesta de legumes orgânicos chegará na minha casa nas quartas-feiras. É como se só faltasse eu fazer a minha própria roupa. O que não seria uma má idéia, aliás. Eu sempre tive vontade de fazer as minhas próprias roupas e me arrependo de não ter aprendido isso com a minha avó. É esta aproximação com as minhas próprias necessidades básicas que estranhamente me dá a sensação de que posso fazer o que quiser com a minha própria vida. De que tenho disposição completa sobre ela. De que nada me protege a não ser eu mesma. Acho que só agora me dei conta completamente de que se quiser, não preciso mais ir ao mercado, não preciso mais cuidar da conservação dos alimentos, posso não tomar água e sair no frio sem agasalho. Não haverá ninguém para impedir. Não haverá ninguém para dizer que perdi o senso de realidade. Decido livremente se quero fazer coisas divertidas ou entediantes. Se quero andar de bicicleta debaixo da chuva fria. Ou se quero ir ao cinema na segunda-feira à tarde, quando passar na frente dele por acaso e perceber que a próxima sessão vai começar. Não é preciso avisar ninguém. Ninguém sentirá a minha falta onde quer que seria o meu destino. Se não há ninguém para compartilhar a diversão, também não haverá ninguém que me convença a realizar atividades que eu não queira. Assim fica mais claro que vivo porque escolhi viver, que posso dar as minhas próprias razões para isso e decidir como fazê-lo. Que devo reafirmar esse desejo todas as vezes que ponho o casaco e as luvas para ir comprar legumes na venda da esquina e não deixo que isso seja apenas uma sucessão mecânica de atos. Nada poderia ser mais real do que isso.
Talvez seja este contraste que tenha me marcado tanto na visita que fiz ontem à cadeia pública desta cidade, junto com o grupo de estudantes de direito da universidade. Acompanhando o chefe da carceragem, que se tornara nosso guia, percorremos todos os pavilhões daquele prédio de mil e oitocentos, que é a imagem do panóptico que eu só havia visto antes em livros. Cumprimentamos os rostos bem alimentados dos detentos. Vimos as suas celas, os locais de trabalho coletivo, o pátio, o centro de esportes e a capela ecumênica. O nosso guia nos explicou em detalhes toda rotina de atividades que os presos devem seguir, cheia de horários pré-determinados. Oito horas de trabalho ou estudo diárias. Uma hora de banho de sol, quando há sol. Três horas de esporte durante a semana. A idéia, disse ele, é sempre mantê-los ocupados para evitar o pior. Isso não me impressionou. Apenas reforçou uma espécie de tristeza que sinto quando observo a rotina de muita gente que vive aqui fora. Talvez seja a rotina daqueles que precisam também buscar formas de se afastar da própria vida para evitar o pior. Talvez um dia tenha sido a minha. Mas o que não me sai da cabeça e não me deixou dormir a noite toda foi a sensação de entrar na cela especial para onde são encaminhados os presos suicidas. Aqueles que não temem enfrentar o pior. Não há nada lá. Um quarto totalmente vazio. O aquecimento vem do chão, as lâmpadas estão embutidas no teto. A privada embutida no chão. A janela bem alta, não pode ser alcançada. As paredes e o chão são revestidos de um material macio. Não há nenhuma possibilidade de executar uma auto-lesão ali. Há um vazio profundo a serviço da manutenção insana da integridade física. O vazio de uma vida que não tem disposição sobre si mesma. A forma mais cruel e radical de limitação de liberdade que uma pessoa pode sofrer. A forma mais irreal que a vida de uma pessoa excessivamente real pode adquirir.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008


Hoje o dia amanheceu nevando. Os muitos graus mais frios fizeram com que toda a água que choveu e que continua chovendo se transformasse. Deixasse de ser fluído sujo e desagradável. Da janela vejo os carros coloridos cobertos por uma grossa camada branca. As árvores já sem folhas também se coloriram de branco. A neblina espessa esconde a floresta. A realidade parece em suspensão. Enquanto eu ando na rua, a neve se acumula nos meus ombros. Eu ando devagar e a deixo ficar por um tempo. Até o cachorro preto mudou de cor hoje. Tudo parece mais calmo quando coberto pelos flocos macios da neve. As moléculas não se mexem tanto. Descansam.
O inverno aqui parece estar num momento de constante incerteza. Não há equilíbrio possível. Os estados são sempre passageiros. Nada se mantém por muito tempo. A cada novo dia, algo novo pode acontecer. E dependendo da sorte de cada dia, o novo pode ser bom ou ruim. Um dia temos chuva e não faz tanto frio. Um ou dois graus a mais faz tudo congelar. O gelo é diferente da neve. Tem uma violência transparente e rígida que pode machucar. Ontem um homem fazia um esforço enorme para arrancar o gelo do capô de seu carro e poder ir para o trabalho. Os flocos de neve de hoje se deslocavam com facilidade e obedeciam a seu toque gentil. A neve quando acontece parece um milagre. Algo bom que pode acabar logo. E nos faz pensar sobre a urgência de se contemplar as belezas efêmeras. Um ou dois graus a mais a fará derreter. E isso acontecerá nas próximas horas. A umidade poderá a qualquer momento invadir o nosso corpo de novo e dissolver o nosso estoque de auto-estima.
Engraçado notar que a mesma matéria pode ter humores tão diferentes. Pode mudar tantas vezes sendo a mesma. Uma identidade que só se percebe na mudança. Eu me sinto cada vez mais parecida com o clima local. Minha matéria muda de estado muitas vezes ao longo do dia. Às vezes eu chovo pingos pesados e violentos. Mas sem perceber, posso parar de machucar e virar apenas uma garoa irritante. De vez em quanto eu congelo dentro de mim mesma. E tenho que fazer força para arrancar as placas de gelo com as quais eu tento me sufocar. Eu também posso anoitecer antes das cinco da tarde e me abandonar na escuridão. Na escuridão triste de uma noite sem lua. Há dias em que flutuo protegida pelo fog cinzento e me sinto bem com o fato de não poder ser vista. Mas eu também posso amanhecer macia e luminosa como a neve. Calma e silenciosa como a cor branca. E descansar sob a certeza de que em pouco tempo não serei mais. Não estarei mais aqui e minha beleza não poderá mais ser vista
.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Depois do primeiro gole de vodka, Adam perguntou a minha idade. Eu respondi e devolvi a pergunta. Trinta e dois, ele respondeu. Mas em seguida acrescentou, mas estou quase morto. A palavra em alemão era Gestorben. E eu fiquei tão surpresa com essa frase, que achei que não tinha entendido bem. Eu pedi para ele repetir e ele repetiu calmamente, com a maior sinceridade que eu já vi alguém ter com uma estranha que lhe concebera menos de meia hora de conversa: EU ESTOU QUASE MORTO. Eu fiquei sem saber o que responder. Eu sabia que a frase não precisava ser explicada. De alguma forma eu já havia percebido os sinais externos disso, só não havia podido enunciar de forma tão clara. Percebi o quanto a sinceridade pode surpreender e quantas vezes a evitamos. Quantas coisas fingimos não ver e, quando as vemos, preferimos não nomear. Pensei em quantas pessoas poderiam ser declaradas como mortas aos trinta anos de idade, mas não teriam coragem de dizê-lo. Preferimos eufemismos na maior parte do tempo. Talvez pretendemos evitar o efeito performativo das palavras. Eu preciso entender melhor esse fenômeno lingüístico que está explicado naquele livro que eu nunca li. Porque eu quero fazer coisas acontecerem e não mais evitar que elas aconteçam. Ainda que seja quase sempre muito difícil encontrar as palavras certas, eu poderia pelo menos tentar. Eu quase não consegui encontrar palavras para responder a Adam e eu sabia que desta vez o meu problema não era a língua estrangeira que eu falo aqui. Eu pensava se deveria de alguma forma amenizar a situação e achei melhor não. Como não poderia contrariar a constatação, achei que seria injusto romper o pacto de sinceridade que de repente se estabelecera entre dois estranhos que habitam mundos tão diferentes. Eu decidi tentar. Que bom, Adam. Porque só assim você poderá nascer de novo. E o quanto antes você descobre que está morto, melhor. Ele ficou em silêncio. E eu repeti, você pode nascer de novo agora, Adam. E ele não disse uma palavra. Talvez estivesse pensando como poderia enterrar a sua velha vida. Ele havia contado de todo o trabalho que tem na universidade. Carga horária excessiva e responsabilidades. Angústia com a sua tese de habilitação e incerteza quanto à vaga definitiva de professor. Tudo isso deveria ser enterrado. Ele se orgulhava de ocupar uma posição na hierarquia acadêmica e de ter escrito um livro. E isso também não lhe valeria mais de nada. Ele teria que se livrar de tudo isso para poder nascer de novo. Não se leva títulos para uma nova vida. É mais fácil enxergar o leque quase infinito de possibilidades quando se é ninguém. Não se começa uma vida nova sendo funcionário público da Universidade da Cracóvia. E Adam sabia disso, mas evitou dizê-lo. Espero que não demore toda a sua não-vida para fazê-lo.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

A room in the middle of nowhere

O garoto loiro de olhar triste escreve o mesmo email há mais de uma hora. Talvez uma carta de amor. Talvez uma carta difícil para o seu orientador de doutorado. Talvez uma carta rompendo com sua noiva na Polônia. Ele relê muitas vezes o que escreveu. Os olhos fixos na tela do computador e o corpo imóvel. Eu poderia dizer a ele, don’t think twice it’s all right. Mas não tive coragem de romper a barreira da pseudo-individualidade que tentamos manter por aqui. Eu digo pseudo pois é bem difícil não ser percebido nos menores movimentos quando se compartilha a mesma sala silenciosa de leitura por pelo menos 8 horas por dia. Sentada na minha mesa perto da janela, eu sei quando alguém decidiu dormir até mais tarde. A que horas cada um costuma almoçar. Quando alguém recebe um telefonema importante. Eu percebi que o levantar de quem vai pegar um livro na estante é diferente daquele de quem vai ao banheiro. De alguma forma todos respiram o mesmo ar melancólico nesta sala. Kate se lamenta todos os dias porque está longe de seu namorado, que vive em Paris. E longe de sua casa no Canadá. Ela vive aqui há 2 anos e deve ficar pelo menos por mais dois. Mas é como se não estivesse aqui. Ela não vive nela mesma. Sempre fala em estar e outro lugar. Sempre fala em estar em outro corpo, talvez mais magro e com seios menores. Sempre pergunta como vai o meu trabalho e eu sempre respondo ganz gut, embora esteja tudo indo bem devagar. Eu só não tenho a mínima vontade de lamentar pelo trabalho não feito. Ela também poderia fazer isso, mas não. Sempre responde com um pequeno suspiro preocupado e reclama de algo. As coisas não vão como gostaria. A organização do texto está difícil. O tempo está ruim e a chuva do caminho a fez molhar seus rascunhos. Ele perdeu muito tempo tirando cópias ou se alimentando na última semana. Me dá uma certa tristeza ver alguém que simplesmente decidiu abandonar-se por quatro anos. Eu penso no tempo desperdiçado. Na vida desperdiçada. E acho que escrever um doutorado não vale tudo isso. Não vale vitimizar-se perante o mundo.
O homem suíço que chegou nesta semana não parece humano. Cabelos raspados, óculos modernos e camisas bem passadas. Homo faber. Homem-máquina concentrado em seus afazeres sistêmicos Eu me apresentei por gentileza, ele sorriu. Ele quase não faz barulho. Eu também não. A mulher iraniana de um metro e meio também não.
Adam usa diariamente calça social e a mesma gravata quadriculada por baixo do mesmo pulôver bege. O cabelo penteado para o lado direito parece uma reminiscência de quatro décadas atrás. Tem um sorriso doce e está sempre disposto a iniciar uma conversa sobre o que quer que seja, como se fosse a coisa mais importante do mundo. E essa conversa durará algum tempo. Ele coordenará a conversa com gestos comedidos e sérios, quase senis. Tentará usar de alguma ironia, para tornar o seu discurso mais agradável. Mas ao final, um silêncio invencível virá. O silêncio de quem agarra com todas as forças os pequenos momentos de atenção que recebe, mas não os consegue segurar por muito tempo. Há tipos diferentes de silêncios. O silêncio que termina a conversa de Adam parece fazê-lo sofrer, pois simboliza o seu fracasso. Eu normalmente gosto dos silêncios e na maior parte do tempo acho que eles não precisam ser preenchidos. Para mim, eles têm vida e significados próprios. Não são apenas o negativo de algo. Gosto muito de fazer silêncio ao seu lado, por exemplo. E comprovar que nosso amor também é feito de silêncios. Eu gostaria de explicar isso a Kate. De explicar que, assim como os silêncios, a solidão também pode ser de dois tipos. Há uma solidão que não consegue ser, porque é apenas falta, apenas não-estar-com-alguém. Esta logo deixa a marca do desejo frustrado e faz não se ter vontade de viver no lugar onde se está. É uma solidão que vem da saudade de si mesmo e eu acho que solidão de si mesmo é a coisa mais triste que pode acontecer. A outra forma de solidão é uma solidão que ganha corpo próprio e por isso deixa de ser solidão, vira companhia. Uma companhia agradável, que traz um inesperado e calmo auto-centramento. Que nos faz perceber que normalmente queremos mais do que precisamos. E que o que precisamos é de mais espaço. Espaço para que nossos desejos se espalhem de modo mais confortável. Decidam livremente o que querem fazer a cada momento. Para onde querem ir. Decidam sozinhos se querem voltar ou não para casa. A que horas querem comer, se é que querem comer. A que horas querem acordar, sem ter que usar despertador. Agora eu me sinto muito bem com a minha solidão. Eu percebi que posso ir a muitos lugares só com ela. Ela me faz olhar para o que há ao meu redor e enxergar o que eu tenho ao alcance das mãos. E me divertir com o que quer que eu encontre. Pois quase sempre é possível se divertir quando deixamos de nos lamentar pelo que não temos. Com ela posso sentir saudades de você e não me perder. E não te perder. E perceber que não sofremos de nenhum tipo de patologia crônica que leva ao sufocamento. Que só assim a felicidade do encontro poderá acontecer. Que o nosso amor é também feito de silêncio e solidão e é por isso que eu gosto dele. Eu conheci a minha solidão e percebi que ela me faz bem porque me diz o tempo todo:
enjoy yourself! Eu queria que as outras pessoas desta sala silenciosa também pudessem ouvir a voz da minha solidão.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Forms of otherness


Foi você que me levou para o seu mundo. E descobriu algo em mim que eu não conhecia. E eu também não sei mais se é possível delimitar o que é seu e o que é meu. O que sou eu e o que é você. O que é a minha voz ou o eco dela. A sua ou o eco dela. Quando eu falo com você é como se eu falasse comigo mesma como outro. Um selbst que está conscientemente perante o selbst de outro e torna-se assim um outro em relação a si mesmo pelo fato de se ouvir falar e dar respostas a si mesmo. Esse "eu" não mais me pertence. E se isso é compreender a origem da pragmática da linguagem, eu acho que fomos muito mais longe. Você me mostrou que a linguagem pode ser muito mais que comunicação, expressão ou poesia. Construímos com ela um território livre incorpóreo. Uma bolha que podemos habitar sem estar e não nos sentir sozinhos estando. Um refúgio para onde nos deslocamos sem os nossos corpos. E isso é muito mais do que a nossa já conhecida tendência ao platonismo. Porque não se trata de observar sombras desde o lado escuro da caverna. Daqui, podemos ver as mesmas coisas, comer a mesma comida, ouvir a mesma música, sonhar os mesmos sonhos. E nos tocar. Daqui, provamos que Goethe é insuficiente. Que afinidades eletivas são muito mais que deslocamento de moléculas. Tem mais a ver com magia do que com física. Algo mudou quando finalmente nos reconhecemos. E talvez tenha sido mais do que as nossas próprias vozes. Percebemos que, sendo dois, algo poderia acontecer. Um rio poderia então passar.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Não sei se é certo eu habitar o seu lugar sem pedir licença. Uma vez que você me trouxe para dentro do que é seu, me sinto, de alguma forma, livre para percorrê-lo. Assim como você é a vitrola, assim como você é o tapete verde e a árvore do outro lado do vidro, eu também sou as suas palavras e poucas coisas me deixam mais tranqüilo do que escutar de volta os ecos da minha própria voz. Quando atinjo o topo da montanha eu também preciso gritar bem alto e esperar que alguém responda. E eu também sorrio aliviado quando quem responde é a minha voz avançando distancias. Quando leio os seus textos é como se a minha voz tivesse finalmente parado de ecoar no espaço e finalmente encontrado um lugar para descansar. E ser ela sem mais ter que ser. Como as pessoas quando mudam, ela também deixa de ser. Para continuar sendo. 

E para alguns isso parece tão pouco!

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Skinny love

You sent me this song and I just don’t know what to do with all that. It’s too much. Too much unspoken to fit my small solitude. I’m sinking in it. It sounds like old times. It reminds me what I never had. It seems I’m living inside it for many years. My eyes fixed on this song every moment of the evening. Starring it was too strong and I always ended up crying. I took the risk of crying in front of strangers and I don’t care. My self-protection was just too weak to deal with this strange voice coming through the dark air, surrounded by claps. I was not insulated enough against real hurt. Against you don’t caring. Against feeling my nose bleeding again.
I’m not patient. I’m not fine. I’m not balanced.

Cut out all the ropes and let me fall

O lugar onde eu habito também é um mistério para mim. Eu o estou descobrindo aos poucos novamente. Eu estava errada quanto aos lugares permaneceres iguais. Nunca se pode estar em um mesmo lugar duas vezes. Porque os lugares dependem de nós para existir e nós nunca somos os mesmos duas vezes. Isso nos coloca de novo diante da velha questão existencial sobre se as coisas permanecem lá quando não estamos olhando para elas. Nunca saberemos. Apenas supomos. Uma crença como qualquer outra. Mas eu não quero falar de crenças. Quero falar da experiência de viver a situação complexa de estar entre memória e presente. De não estar mais no mesmo lugar, por não conseguir repetir o mesmo ângulo de visão. De perceber que tudo se faz novo. O novo e o velho são igualmente submetidos ao mesmo exercício de renovação que acontece com o olhar seguinte de uma pessoa que é diferente da que olhou antes. Não é uma questão de decisão. Não é possível repetir o mesmo. Aquele que se diz o mesmo está blefando. No mínimo, se diferencia do que foi antes porque carrega agora o peso da continuidade. O fardo triste da continuidade. O dado da não mudança já o faz outro. Mais pesado talvez. Mais cansado de lutar contra o sentido natural da vida. Por isso eu não acredito em repetições. Elas nunca acontecem de fato. A lembrança e a promessa sempre se interpõem entre os atos que se dizem repetir. A segunda vez nunca será a primeira. E será também diferente da próxima. Ainda que nos esforcemos para. E logo vem o momento decisivo em que um conjunto de atos de repente pode ser chamado de hábito. Uma sentença declaratória sem limite definido. Lógica fuzzy aplicada à cotidianeidade. Uma vez um professor me explicou o que é isso propondo a seguinte pergunta: quantos fios de cabelos é preciso restar em uma cabeça para que finalmente possamos chamar um homem de careca? Não há um critério quantitativo possível. Eu não gosto de critérios pré-estabelecidos. Chamo de hábito qualquer coisa que tenha vontade de viver novamente. Como se esse status me trouxesse a garantia de que vou realizar um desejo. Eu gosto de hábitos. E gosto ainda mais deles agora que sei que não são repetições. Eles revelam coisas muito especiais sobre cada um que os adota. Pequenas portas para subjetividades incríveis. Você tem o hábito de ouvir vinis e talvez eu também o teria se tivesse finalmente comprado a minha vitrola. Então eu adquiri o hábito de ir na sua casa ouvir vinis e dançar na sua sala. E pouca coisa neste mundo me faz me sentir tão livre quanto ter o hábito de dançar na sua sala. Parece paradoxal, mas não é. Uma vez nunca é igual à outra. Você sempre tem músicas novas para me mostrar e sempre consegue manipular os meus sentimentos com a sua música. Cria montanhas de sensações e depois as derruba. Me faz subir bem alto e depois corta a corda para que eu possa sentir a sensação mágica da gravidade. Schmetterling im Bauch. Atraídas pela sua música, as borboletas escapam por nossas bocas e voam pela sala, voam pela janela. Pousam na árvore que fica em frente a sua janela e presenciam silenciosamente o ritual rebelde do hábito. Nesta noite eu habitei a sua sala. E poderia acampar no seu tapete verde, ao lado da sua vitrola, sem nunca me entediar.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

There's a kind of darkness here

Era fim de tarde no domingo e eu achei que pudesse enganar a solidão. Eu achei que se eu cansasse o meu corpo, minha cabeça também se acalmaria e eu poderia dormir. Então decidi correr pelo caminho que leva à floresta, seguindo o trilho do trem. O trem parado na estação e eu podia olhar dentro dos vagões e reparar nas pessoas que estavam sentadas ali. Elas pareciam protegidas pela luz amarela que já estava acesa embora ainda não fosse noite. Pela calefação que as aquecia. Por seus companheiros e filhos. Por seus livros. Por terem um destino certo. A paisagem do trilho do trem depois que ele passa é sempre triste. Um caminho já sem promessas, que eu perseguia sozinha. Carcaças abandonadas ao tempo, que eu testemunhava em meu silêncio triste. Eu logo me afastei da cidade e subi pelo Waldweg. Ficava cada vez mais frio dentro da floresta onde o pouco sol que tivemos durante o dia provavelmente não havia podido penetrar. Eu achei que pudesse enganar a natureza. Eu achei que teria energia suficiente para aquecer o meu corpo. Mas a temperatura baixou rapidamente e eu estava longe. A floresta me atraía, como a morte. E eu tive que levar a sério um dialogo comigo mesma em bases pretensamente racionais para me convencer que a melhor coisa a fazer era voltar. Eu tentei fazer o caminho de volta correndo o mais rápido que podia. Eu tentei elevar a temperatura do corpo com o esforço que fazia, mas isso não era suficiente. Ninguém vence um frio de graus negativos só com a boa vontade do metabolismo. Muito menos eu. Eu sempre achei o meu metabolismo lento. Quando eu precisei de ar, ele estava gelado. Era já quase matéria e doía quando abria caminho pelo meu corpo. Eu ficava cada vez mais cansada e minha respiração mais rápida e ofegante. E assim eu fazia entrar cada vez mais ar congelante no meu corpo. Maldito círculo vicioso congelando minha garganta e meus pulmões. Formando pedras de gelo doloridas em meu peito. O gato preto finalmente pulou nas minhas costas e eu senti de uma vez todo o medo que se pode sentir quando se está diante de um gigante. Eu chorava e as minhas lágrimas gelavam o meu rosto. Eu senti o terror me paralisando. O que aconteceria se eu não conseguisse voltar a tempo ou se eu simplesmente desistisse? Eu seria só mais um número na cota dos mortos em razão de fenômenos naturais. Como os que se afogam nas enchentes. Poderiam até dizer que eu morri de morte natural. A floresta seria inocentada. Eu havia empreendido uma demonstração esquisita de coragem e desprendimento e deveria assumir a responsabilidade de ter desafiado a natureza e me arrependido quando já era tarde. Como aqueles que se jogam da ponte e não podem mais voltar. Eu sempre me pergunto sobre a última coisa que eles puderam pensar. Eu não pensava em nada, só tentava voltar atrás. Eu corria na direção contraria do trem e quando a luz brilhante do seu farol passou por mim novamente ela não me aqueceu. O seu barulho nem sequer se diferenciou do barulho amplificado da angustia ecoando dentro da minha cabeça. Eu escondia as minhas mãos na manga da minha blusa e apertava forte. Eu costumo fazer isso quando sinto que posso escapar pelos dois buracos da manga. É uma tentativa de permanecer. Quando eu finalmente cheguei em casa, minhas mãos tremiam tanto que foi muito difícil encaixar a chave no buraco da fechadura. Eu a deixei cair duas vezes no chão, porque não sentia mais minhas mãos. Meu corpo inteiro tremia de uma febre fria. Eu passei mais de uma hora embaixo da água quente, tentando retomar o ritmo da minha respiração. E eu não conseguia parar de sentir frio. Havia pedras de gelo dentro de mim que demoraram para derreter. Havia uma espécie de escuridão profunda em mim. A escuridão que me levou para o meio da floresta congelada. A mesma escuridão que fez você ter medo a tantos quilômetros de distância, no mesmo fim de tarde melancólico de domingo. O mesmo medo de quem toca a escuridão. A mesma escuridão pela qual nos apaixonamos.

Uma cerimônia solene de desocultamento

Você veio conhecer o meu mundo. E caminhou por ele como se já conhecesse. Quando eu enfim te reconheci, era como se já não houvesse surpresas. Eu te levei aos lugares certos e te mostrei as paisagens certas. As escolhas que agradariam a mim mesma, já que quase sempre observamos o espaço exterior do mesmo ângulo e fixamos nossa atenção nas mesmas coisas. Talvez mais que mero acaso. A alegria de te encontrar poderia ser a alegria de encontrar a si mesmo pelo mundo. Reconhecer-se para além de si. Desafiar a atomicidade. Alterar os limites das coisas. Irradiar. Talvez sejam esses os desejos primários de todos nós. O fundamento da socialização e o fundamento de tantas frustrações. A origem da solidão: um alter que não encontra um ego e desaparece. Encapsula-se em suas necessidades individuais básicas até que um dia simplesmente não estará mais lá. Não aparecerá mais no trabalho. Abandonará a família. Passará pela portaria sem ser visto. Falará sozinho até que sua voz se transforme no barulho do vento.
Tantos mortos precocemente por não reconhecerem o desejo pelo outro no desejo de si e de sobreviver a si. Sobreviver nas coisas que escrevemos e que desenhamos. Nas fotos que tiramos, nas histórias que inventamos, nas paisagens que construímos. Desafiando as patologias dos nossos próprios egos, testamos as coincidências e repassamos as semelhanças. Exercitamos telepatia. Fingimos para os outros que somos um só. Expomos a cumplicidade a toda espécie de desafio, para saber que ela estará sempre lá. Brincamos de descrever as imagens que guardamos na memória, para ter certeza de que teremos o mesmo repertório nos momentos de nostalgia. Uma caixa de primeiros socorros para as noites difíceis. Um dèja vu de si mesmo em estado de calma. Como os coelhos de Alice que romperam com o tempo na hora do chá, poderíamos passar a vida toda ao redor de duas xícaras. Bastando-nos e sendo de novo capazes de rir do resto do mundo.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Beruf: Master


"Ich denke, ich war bissexuell. Ich habe einfach viel experimentiert. Die Idee, in eine neue Art von Sexualität involviert zu sein, war sehr verlockend für mich, wie ich jedes Tabu anziehend fand. Heute wäre es vermutlich sehr schwierig, solche abenteuerlich Wege zu gehen. Ich würde es hassen, heute 18 Jahre alt zu sein und nicht die Möglichkeit zu haben, meine Sexualität zu erkunden. Das ist eine Beeinträchtigung der natürlichen Fülle des Lebens" Bowie, 2003.

domingo, 30 de novembro de 2008

sábado, 29 de novembro de 2008

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Can't you see i'm trying?

As árvores vão ficando cada vez mais vazias e há muitas folhas no chão. Elas se acumulam nas calçadas, formam montanhas compactas de cor ocre e invertem o sentido do mundo. Mas quando o orvalho que as cobre congela, elas se tornam frágeis. Revestidas por uma fina camada de gelo, sua maciez se aprisiona em ângulos retos. Não suportam ser tocadas. Quebram-se mais facilmente, fazendo um ruído triste e seco. Tento manter meu corpo quente, mas sinto que é mais fácil quebrar-se quando o gelo nos cobre.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

para i.

Alguns livros não são compreendidos porque não são para isso. Eles pularam um estágio. Pressuporiam a cristalização de um determinado estado de sensibilidade que não está. Algumas pessoas percebem antes que outras os sinais da chegada de terríveis e maravilhosas possibilidades e escrevem sobre elas, quando os demais ainda não se deram conta. Existe sempre a esperança de que isso aconteça quando o escritor decide transbordar as fronteiras de sua própria experiência. É exatamente esse o único ato capaz de detonar a explosão dessas possibilidades e é por isso que ele vale a pena. Pelo simples fato de ser uma promessa e de não exigir nada além. Um microcosmo que decide quebrar a barreira pessoal sem nenhum objetivo é por si só um revolucionário. Mas quando o extraordinário acontece, passamos noites sem dormir, choramos e rimos e sonhamos e amamos ao mesmo tempo. E sentimos vontade de viver. E isso não pode ser evitado. Mesmo que pensem decifrá-lo. Mesmo que dissimulem entendê-lo. Mesmo que finjam não vê-lo. Pois não se trata de querer tornar o pessoal em geral. É essa a pressuposição errada que produz repetições medíocres de coisas que já sabemos. É isso que a vida tenta fazer conosco. Transformar uma experiência singular em algo pretensamente maior. Tentam nos convencer de que devemos justificar a nossa minúscula existência como algo que deva interessar à humanidade. Tornar-se adulto é acima de tudo se convencer de que a experiência única e incrível de cada um é o que todos compartilham. E nós simplesmente nos recusamos a isso.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Where the sad-eyed prophet says that no man come




A estrada nos fazia subir as montanhas passando pelo meio da floresta. O farol do carro revelava só um pouco do que havia ali. O céu, quando se via, tinha a mesma cor quase negra de tudo o que me circundava. Eu me sentia protegida pela escuridão profunda. Você entenderia finalmente de onde veio se estivesse estado onde estive hoje. Um prédio construído em 1707, em um vilarejo no alto da montanha. Havia sido um convento, uma casa linda de 17 janelas, ao lado de um riacho. Difícil acreditar que aquele lugar existe no mesmo mundo em vivemos, na época em que vivemos. Dentro, o aquecimento era feito do mesmo modo que há dois séculos: o forno construído no centro da casa, irradiando calor para todo o resto. E eu me sentia no útero do mundo. O repertório de móveis, onde você também reconheceria o seu lugar, consistia em paredes, mesas e cadeiras de madeira. Almofadas e cortinas floridas. Mulheres de bochechas vermelhas vestindo saias longas com aventais brancos. Um vaso em forma de ganso. Retratos pintados à mão. Um gato gordo passeava calmamente ente as mesas. Pessoas que pareciam estar sentadas ali desde sempre e para sempre. Eu também poderia ficar. Eu poderia viver do som da água batendo nas pedras, do barulho do vento balançando a copa das árvores já quase sem folhas, do estalar da madeira que queima para nos aquecer e da escuridão da noite sem iluminação pública. Coberta por uma massa espessa de passado, de neve, de silêncio e de distância, talvez minha cabeça pudesse finalmente descansar.

Past is present now



Já quase não nos conhecemos mais. Já quase não somos as mesmas. Dizemos coisas que não queríamos dizer. Dizemos coisas para simular normalidade. Coisas com sentido. Encontrar o tom correto para falar. Encontrar o fio da razão e seguir junto a ele. Como as crianças do jardim da infância quando saem para passear na rua, em fila, de mãos dadas para não se perderem. Existe sempre o risco de se perder. De esquecer o próprio nome. Mas tentamos evitá-los a muito custo. E assim corremos o risco diário de decidir seguir, sem perguntar para onde nos levam. Fazemos comentários de quem lê os jornais todos os dias e usa sapatos para sair na rua. Pelo menos eu sempre falo em uma língua que não é a minha. Nunca se é si mesmo em uma língua estrangeira. E eu me sinto protegida por isso. Eu me sinto livre para usar como quiser palavras que não significam nada para mim. Não há limites. Nunca serei descoberta. Falamos sobre sacerdotes e sua prepotência de permanecer intocáveis. E no fundo tudo o que queremos é permanecer intocadas. Tudo o que tememos é permanecer intocadas.
Nunca conseguimos realmente sobreviver à experiência de não estar. De não nos encontrarmos todos os dias no parque. De não nos encontrarmos todos os dias na biblioteca e sair para fumar e comer sanduíches de queijo. De não termos mais as ruas de uma cidade suja e barulhenta para lamentar. De não termos mais bicicletas para roubar. Você agora fala sobre a descalcificação dos ossos e sobre seu novo trabalho. Uma existência que parece se justificar por si só. Uma maneira de não se perder, de não desviar, de camuflar-se. Como uma nova manifestação de um velho fenômeno, percorremos os mesmos assuntos. Para confirmar que algumas coisas continuam ali. Que os lugares vazios ainda não foram preenchidos . Que há ainda lugar para nós mesmas.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Sobre o que você me disse hoje à tarde

É mesmo interessante o exercício observar-se sem a própria vida e ao mesmo tempo observar a própria vida sem si mesmo. Acho que você já sabia o que era isso quando me falou da diferença entre solidão e liberdade. Talvez só por isso você tenha voltado. Talvez seja por isso que você sempre teve certezas e eu não. Talvez seja por isso o seu olhar na foto. Parece que eu estou vendo a minha própria vida no cinema, ampliada, amplificada e com trilha sonora. E sob esse ângulo, como acontece no cinema, consigo ver as coisas que passam desapercebidas naquilo que as pessoas chamam de vida real. Daqui eu posso ver com nitidez tudo o que faz e o que não faz sentido. Tudo o que importa e tudo o que não importa. Tudo do que eu não preciso e o que não precisa de mim. Todo o tempo e energia perdidos com atividades estúpidas. Contatos sociais sem sentido. Conversas desnecessárias. Hábitos repetidos mecanicamente. Calorias ingeridas só por compulsão. Utensílios domésticos inúteis. Quanto papel deve ser jogado fora. Quanta roupa deve ser doada. Quantos copos devem ser quebrados. O dinheiro no banco, que deve ser gasto. Nenhuma sessão de psicanálise jamais me colocou em um ponto de visão tão adequado quanto este. Daqui eu vejo a mim mesma e a minha vida em estado bruto e sem paliativos. Vistas daqui, as respostas rápidas, esquecidas um segundo depois, não encerram os assuntos. As desculpas e justificativas que me confortam nos dez minutos que penso sobre a vida antes de cair no sono não têm qualquer consistência. As camadas de verniz que uso em tantas conversas são apenas sujeira. Tudo salta aos olhos em seu estado natural e inapelavelmente cruel. Eu aqui sou apenas eu. As circunstâncias que se dizem minhas ficaram longe. E me deixaram livre. É como se eu tivesse de uma hora para outra resolvido a equação do livre arbítrio. É como se eu tivesse de uma hora para outra me livrado da responsabilidade pelo que não é meu. Aqui eu só me preocupo em sobreviver e em encontrar razões para isso. Passar a própria vida sob o julgamento do desejo e livrar-se do que não foi absolvido. E eu acho que eu começo a enxergar que o que me resta cabe numa casa menor.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008


Hoje eu parei de andar a pé e peguei a minha bicicleta vermelha. É a mesma de dois anos atrás, que eu nunca tive coragem de vender quando fui embora daqui. Eu a deixei com uma amiga. E fora essa amiga, ela é o laço mais estável que eu tenho com esta cidade. Eu sempre acho que é ela que me faz voltar. Pelo menos é sempre nela que eu penso quando me canso do lugar onde moro e penso que gostaria de ser mais livre. Eu voltei aqui para reencontrá-la no verão do ano passado. E valeu a pena. É uma steiger, fabricada aqui provavelmente na década de 60, com luzes movidas a dínamo, em perfeito estado, que eu achei numa loja de bicicletas de segunda mão. Eles a comprariam de volta quando eu partisse, mas eu não pude. Eu sempre penso em levá-la comigo, mas sei que ela só faz sentido aqui. Onde eu moro ela seria apenas um fetiche vintage. Aqui é ela que me faz encontrar os lugares bonitos onde que eu gosto de me perder. Eu não me importo em viver a ilusão de que algumas coisas me garantem acesso a algum lugar secreto onde eu já fui feliz. Eu não me importo em fracassar quase sempre nisso. Porque eu hoje eu fui com a minha bicicleta até o meio da floresta triste e não tive medo de ficar sozinha.

domingo, 23 de novembro de 2008

Ruído sujo

A neve produz um efeito sonoro interessante. Ela abafa todos os sons. Os divide ao meio. É como se uma parte deles fosse absorvida por ela. E sobrasse apenas o melhor. Sem dissonâncias ou agudos incômodos. É um jeito diferente de produzir silêncio. Ou uma forma específica e agradável de surdez. Aposto que ninguém usa tampões para ouvidos quando neva. Não é necessário. É quase como se não houvesse gravidade. Como se toda a queda fosse amortecida. E já não houvesse surpresas. Se você estivesse aqui, eu te diria muitas coisas. Eu te diria qualquer coisa. Eu nem sequer pensaria antes de dizer. Talvez haja coisas que eu só vá te dizer quando estivermos sozinhos na neve. Porque elas soariam melhor. Eu teria certeza de que elas cairiam no macio e que você ouviria apenas a parte bonita do que eu seria capaz de te dizer. E então você sorriria para mim.

A woman left lonely



Ela me perguntava se tinha pronunciado meu sobrenome corretamente. Naturalmente que não, porque os alemães não falam o ch como nós. Para eles, ch se lê como dois erres e não como x. Então, eu já me acostumei. Já nem presto atenção nisso. Eu mesma já falo meu sobrenome como eles gostariam de ouvir, para evitar a demora na compreensão e a explicação toda sobre a diferença de fonemas entre as duas línguas. E eventualmente a burrice daqueles que sequer sabem que se fala português e não espanhol no Brasil. Eu simplesmente não me importo com o meu sobrenome. Eu tenho 3 e não me importo com nenhum deles. Mas aqui eles são importantes. Aqui todo mundo tem a mania de chamar os outros pelo sobrenome...colocando Frau ou Herr na frente. O que me faz me sentir no século 19. E com pelo menos 15 anos a mais de idade. Também me incomoda essa ostentação gratuita do gênero. Mas é como eles gostam. Cada coisa no seu lugar. E os desajustes se dão em silêncio. Mas a médica, provavelmente uma pessoa esclarecida em termos de multi-culturalismo, insistia em aprender a pronúncia correta. Ela não sabia que eu não me importaria e eu também não quis dizer. As vezes é bom deixar as nossas verdades em lugares inalcançáveis. Mas ela continuou, perguntou a minha língua, a minha origem e eu respondi a tudo monossilabicamente. Sem nenhum complemento, observação ou comentário. Queria evitar a excitação tradicional que um alemão tem ao conhecer o exótico ser que vem do outro lado do hemisfério. Queria evitar que aquilo se transformasse em uma conversa entre duas pessoas. Eu queria ir direto ao ponto, dizer que meu corpo todo ardia e que não fazia nenhuma diferença naquele momento como eu me chamava, de onde eu era e que língua falava. Não fazia diferença quem eu era. Eu era só um corpo que ardia e queria alivio. Só um corpo. E isso é a única coisa que é realmente universal. Enquanto eu repetia a história que já havia ensaiado comigo mesma mais de uma vez, e já havia inclusive checado as palavras difíceis no dicionário, ela preparava uma injeção. Depois, foi ela quem foi direto ao ponto. Me pediu para abaixar a calça ali mesmo, de pé, no meio do hospital. E então me aplicou a injeção. Eu nem tive tempo para pensar. Nem para temer. Eu tentei respirar e não pensar na agulha, na dor, no ridículo da situação de ser aliviada por uma velha alemã de 70 anos. Eu tentava fazer a respiração que aprendi na aula de yoga. Eu tentava ser só um corpo e me concentrar nele, mas minha cabeça não parava. Ela puxava assuntos idiotas para me distrair. Falou algo sobre relaxamento muscular e hiper-ventilaçao. Eu falava Ja, ja...e sabia que seria arriscado demais querer articular uma frase nessa situação. Colocar o verbo no lugar correto e declinar adequadamente os pronomes. Eu queria me concentrar em ser só um corpo. Parecia interminável, mas eu sei que foi rápido. Saí caminhando. Tentava equilibrar em minhas mãos todos os papéis que recebi do hospital, junto com todos os adereços de inverno - as luvas, o gorro, o casaco e o cachecol. Quando finalmente terminei de vestir tudo, percebi que minha perna doía. Cruzei a sala de espera. Cruzei um casal de velhinhos em cadeira de rodas. Tinham olhos curiosos e vestiam tamancos de plástico de cores fluorescentes. Cruzei um casal de meia idade, entretidos com sua pequenez de espírito. Um garoto sozinho, que lia o jornal e tinha diante de si pelo menos 5 copos de cafés já tomados durante a espera. Era de graça. Um carro de resgate chegou, mas estava vazio. Nem sequer eles faziam ruído nesta manhã calma de domingo. No caminho de casa, Janis Joplin começou a cantar na rádio do táxi. Então eu pensei que Janis enfrentaria de frente coisas muito piores do que uma injeção em um hospital alemão altamente higienizado. Então eu deixei todo o medo ir embora e mergulhei na vista que alcançava da janela do carro. O motorista pedia explicações sobre o caminho e eu fingi não saber. Havia neve ainda. Embora o sol estivesse justamente tentando derretê-la. E desse lado da cidade, ela não se transformava em sujeira, mas em pingos brilhantes de água limpa. Havia dignidade e beleza nos pingos que sucumbiam ao sol. A médica me disse que eu me sentiria cansada e com sono depois da injeção. Mas eu fui sentindo uma calma absurda. Eu me senti flutuando numa bolha liquida. Havia beleza e dignidade em sucumbir ao efeito anestésico daquele fluído que entrou em mim via aplicação subcutânea. Eu finalmente sorri nesta manhã de domingo e aproveitei cada minuto da minha felicidade química.

sábado, 22 de novembro de 2008

Schnee




Eu acordei tarde e demorei muito para arriscar sair do meu quarto. Eu já morei neste lugar. No quarto da frente. Por muito tempo. Numero 513. Agora sou numero 515. Mas divido a mesma cozinha. Que tem o mesmo mau cheiro de 2 anos atrás. Coloquei meu pé ao lado do aquecedor e fiquei olhando pela janela. A paisagem, dessa vez, é diferente. Daqui, eu vejo a floresta negra. Uma floresta de eucaliptos, provavelmente replantados, mas muito densa. Ela ainda está verde, mas já há algumas árvores com cores estranhas. Que destoam. Minha pele tem uma cor estranha hoje. Os eucaliptoa se adaptam bem ao inverno, mas visivelmente não estão em seus melhores dias. Talvez isso valha para mim também. Enquanto olhava pela janela, começaram a cair os primeiros flocos de neve. E eu de repente achei que esse é um jeito muito bonito de ser recebida em um novo pais. Me animei a sair na rua e presenciar a beleza efêmera dos flocos de neve. Eles não caem com a violência dos pingos de chuva. Têm uma leveza incrível, brincam ao vento antes de caírem no chão e se tornarem sujeira definitivamente. Não estava frio o suficiente para que a neve se acumulasse no chão. Eu me surpreendi o dia todo comigo mesma desejando que a temperatura baixasse. E isso acaba de acontecer. Acaba de nevar seriamente nesta cidade. A primeira neve deste inverno. E você não está aqui para ver. Você perdeu a coisa mais linda que o frio poderia nos dar.

Saí para caminhar. É quase meia noite e não há ninguém nas ruas. Apenas pegadas de pessoas e bicicletas. Agora eu tenho provas de que não estou sozinha nesta cidade. Eu gosto de fazer caminhos novos na neve e sentir meu pé afundando. E olhar para trás e perceber que eu também deixo provas da minha própria existência. Mesmo que ninguém se importe. Os carros estão cobertos de neve. As árvores também. Faz um silêncio absurdo fora e dentro de mim. Faz um frio absurdo fora e dentro de mim. Eu fico triste em pensar que amanhã essas pequenas montanhas de neve podem se transformar em sujeira. Será apenas mais um segredo que a noite esconderá do dia.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

I don't.

Freiburg, Alemanha. First impressions from earth. Na viagem de trem, eu sentei na janela e deixei que as paisagens me atravessassem. Chovia e os pingos grudavam na janela. Eu não tinha força para chorar e a chuva chorava por mim. Você já me contou dessa sensação e só agora eu compreendi. Ela só pode ser vivida completamente deste lado do hemisfério mesmo. Ela só pode ser vivida em cinza. Eu já conhecia o meu destino. Nos mais pequenos detalhes. E estava tudo no mesmo lugar. Só eu não. Hoje fez o dia mais frio do inverno alemão. É um jeito bem esquisito de ser recebida. Anoiteceu cedo e eu tive um pressentimento ruim. Eu me senti vazia e tive saudades. Percebi que minha alma não veio comigo e eu senti falta dela. I don’t dare.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Avalanche

"Et le Temps m'engloutit minute par minute,
Comme la neige immense un corps pris de roideur;
— Je contemple d'en haut le globe en sa rondeur
Et je n'y cherche plus l'abri d'une cahute.

Avalanche, veux-tu m'emporter dans ta chute?"

Esse trecho é de um dos poemas que mais gosto de Baudelaire (le gout du néant). O último verso exerce sobre mim um fascínio especial. Ele me atrai de um modo tão primitivo e profundo quanto a atração que eu sinto pelo chão quando eu o olho desde o décimo quarto andar do meu edificio. É como sentir ao mesmo tempo o prazer da vertigem, a adrenalina do perigo e a proteção da morte. Quando me sinto engolida pelos dias e soterrada por uma avalanche de coisas prosaicas que caem secamente sobre mim, eu paradoxalmente penso na poesia de Baudelaire...e repito baixinho várias vezes: veux-tu m'emporter dans ta chute? É uma forma de resistência. Com glamour....

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Deleuze



"Como cada um de nós era vários, já era muita gente"

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Gesang zwischen dir und mir

siehst du den Abendstern?
ich sehe
hörst du den Wind?
ich höre
fühlst du die Ewigkeit?
ich fühle
und dein Name?
nenne mich Nacht
woher kommst du?
aus deiner Einsamkeit
wohin gehst du?
in deine Innigkeit
gib mir die Hand

(Friederike Mayröcker)

sábado, 11 de outubro de 2008

My own private Everest


É preciso viver com a certeza de que envelheceremos e não será bonito, nem bom, nem alegre. E pensar que é agora que importa: construir agora, alguma coisa, a qualquer preço, com todas as nossas forças. Sempre ter na cabeça o asilo de idosos a fim de nos superarmos a cada dia, para tornar cada dia imperecível. Escalar passo a passo nosso próprio Everest e fazê-lo de tal modo que cada passo seja um pouco de eternidade.

domingo, 14 de setembro de 2008

Tchaikovsky

Eu estava cercada por senhoras de meia e máxima idade com cabelos pintados de cores ocres. Percebia o cheiro de perfume forte misturado com laquê, que ia aos poucos preenchendo a sala e se sobrepondo ao cheiro de madeira nova, que aquelas paredes ainda exalam. Os homens vestiam-se conforme manda o figurino pseudo-relaxado: blazer azul marinho e calça bege, sem gravata. Todos com cabelos grisalhos, às vezes calvos, e cara de quem exerce algum cargo da burocracia esclarecida do governo do Estado. Havia um burburinho saltitante dos iguais que se encontravam no templo da cultura. A música começou logo e o prazer de estar ali – a preços nada módicos, diga-se de passagem – se sobrepôs à minha revolta de classe. Os sons entravam pelo nariz e anestesiavam a minha gengiva. Enquanto eu me concentrava nos movimentos rápidos dos instrumentos e na dança do maestro, a minha cabeça ia aos poucos se esvaziando. A matéria ao meu lado ia se dissolvendo e eu finalmente pude fechar os olhos e pensar em Pateta, aquele cachorro antropomórfico que eu adorava ver quando criança. Era muitas vezes ao som de Tchaikovsky que ele exibia seu sorriso pastoso e seu andar cambaleante e disseminava a ideologia do bom pater familiae, capaz de enfrentar o dia-a-dia do homem comum com bom humor e inocência.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

discreto charme


- se nada temos a dizer, não digamos nada.
- nós temos coisas a dizer.
- então, por que não as dizemos?
- não podemos.
- então fiquemos calados.
- mas estamos tentando...