sexta-feira, 17 de setembro de 2010

prisons. or: no bridge over trouble water





- vc é americana?
-não, sou de san francisco.
- ah, ok.
- eu prefiro deixar claro que não sou um deles.
[o dilema do forasteiro, pensei]
- san francisco is a nice city . eu não conheço, mas sei. quero ir para a Califórnia e viajar de carro.

eu não me lembro como a conversa saiu disso e percorreu tão rápido camadas geológicas de profundidade, mas de repente eu olho para lisa e ela tem lágrimas nos olhos. ela passa as mãos pelos braços e diz que está arrepiada. agora já não me lembro mais da palavra em inglês, era uma palavra que eu não conhecia. e nem precisava, pois o gesto é universal.
ela estava falando sobre o documentário que ganhou sundance, trouble the waters, sobre New Orleans. o diretor deu uma câmera para uma mulher que filmou a água entrando em sua casa, invadindo o batente da porta e se apossando violentamente de todos os espaços. a água ia subindo e em pouco tempo ela já cobria seu pé. aos poucos, o fetiche da auto-destruição - a fronteira móvel entre vítima e mártir. mas o pior, says lisa, nem é isso. essas pessoas viveram uma catástrofe, perderam suas casas, perderam tudo, mas a maioria conseguiu se salvar. o que fez lisa chorar foi ter se lembrado de que no meio de toda a enchente, do desespero ao som do vento, esqueceram-se dos presídios. ninguém pensou nas pessoas que estavam ali dentro. ninguém lhes abriu a porta para que pudessem se salvar. afinal, quem acha que presos têm direito a não se afogar na enchente?
e esse parece ser um consenso em qualquer parte do mundo.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

THERE ARE NO COINCIDENCES IN THE HOT SUN OF A CHRISTMAS DAY



Or, in other words:








essas fotos parecem velhas. a pré-história do que somos hoje. mas kinks e sunny afternoons teremos para sempre.

[one out of the series: processing your past, it's healthy, namaste.]

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

às vezes é você e você
às vezes é você e ele/ela
mas são sempre dois no ringue (quase sempre)
gil, caetano. quase gal.
seu irmão é o seu amor
por causa da mulher.




domingo, 20 de junho de 2010


- why don't you get lost?
- because i am already

enquanto isso eu lia na parede daquela escola uma frase da rosa luxemburgo que dizia: não estamos perdidos. pelo contrário, venceremos se não tivermos desaprendido a aprender.
vencer já não significa a mesma coisa hoje, mas talvez aprender sim. talvez aprender seja sempre a única coisa que resta.
quando chega o fim da semana, tudo o que eu tenho é não estar vencida e meu sangue latino. isso já é suficiente para não me incomodar com estar perdida. se vc tem pelo menos duas certezas, já não está tecnicamente perdida. não importa se a sua dor de estômago vem dos agrotóxicos que vc ingere ou é só angústia somatizada. esse é o tipo de coisa que não faz diferença. o que estão fazendo hoje os dominicanos filhos-da-puta que entregaram marighela também não. eles já estão todos tecnicamente mortos.
rosa luxemburgo virou o nome de uma das praças mais frias de se atravessar no inverno de berlim por causa da confluência de ventos. é também o lugar de onde vimos, mais de uma vez, a revoada de pássaros noturnos fazendo bagunça no céu. eles não eram sincronizados e os barulhos q faziam eram esquisitos, eram cantos desarmoniosos.
a lua quieta acima deles. as ruas quietas e vazias abaixo deles. e nós lá, parados, olhando para cima e deixando que a nossa última reserva de calor fosse finalmente roubada.
não, não desaprendemos a aprender.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Les parapluies de Cherbourg (ou, em português, os guarda-chuvas do amor) [für v.]





"Les hommes ne cessent pas de fabriquer une ombrelle qui les abrite, sur le dessous de laquelle ils tracent un firmament et écrivent leur conventions, leurs opinions ; mais le poète, l'artiste pratique une fente dans l'ombrelle, il déchire même le firmament, pour faire passer un peu du chaos libre et venteux et cadrer dans une brusque lumière une vision qui apparaît à travers la fente."

Gilles Deleuze § Felix Guattari, Qu'est-ce que la philosophie ?


era uma prova à nossa sincronicidade e eu corri o risco. porque um dos meus lugares preferidos de berlim é de uma beleza bem estranha. ou de uma feiura tamanha, que já virou beleza. a ponte sobre os trilhos de trem enferrujados, de onde se vêem prédios industriais de formas retas e cores desbotadas, muros pichados e sujeira preta por toda a parte. onde a neve já não é branca, porque a neve pisada diariamente por centenas de pessoas indo e voltando dos seus trabalhos e dos seus não trabalhos em friedrichshein não é a neve branca dos parques onde as crianças de prenzlauerberg andam de trenó. é o chão dos que sabem se camuflar e não querem ser vistos. é onde cada um se sente mais si e mais ninguém. olhei primeiro para o trem passando. a luz amarela e o calor de dentro dos vagões era uma provocação para mim e vc nem ligou. o trem é sempre o lugar para onde se pode ir para conseguir proteção ao preço de um bilhete validado caso apareça o controlador à paisana. um lugar quente à janela e uma mesinha onde se pode trabalhar enquanto a paisagem te atravessa sem te machucar. eu pensei nisso e me senti estranha por estar fora, sentindo o frio quase congelando meus pés. vc acho que não. claro que não. vc só se debruçou no parapeito pixado da ponte e ficou. eu olhando o trem e vc olhando o céu. eu penso mais em partir e vc pensa mais em ficar, ainda que seja pelo tempo de um instante. é uma dessas situações em que dá no mesmo e o que faz diferença é só a intenção. e por isso mesmo é uma dessas situações que não se consegue dizer. é impossível saber qual. por isso vc só produziu uma onomatopeia e declamou a citação do deleuze como se ele fosse um deus. depois traduziu do francês. alguma palavra que vc não encontrou em alemão não fez diferença porque eu já tinha entendido em francês. vc sempre esquece que eu entendo francês e que eu quase poderia falar se tomasse coragem. mas eu não me importo em ouvir a mesma coisa só que em línguas diferentes. eu até gosto. a imagem do buraco no céu tomou conta e a gente nem notou que estávamos misturando as línguas. a metáfora do declínio da sociedade industrial pelos ferros enferrujados já não interessava. embarcar num outro nível de vínculo com alguém é sempre algo que a gente não sabe de onde e nem como vem. só fomos inocentes em achar que era só nós dois. os raios do sol pelo buraco que se abriu na cobertura cinza e maciça que era um teto já não tinha nada a ver com o sopro da bomba que abriu brechas na parede de tijolos vermelhos durante a guerra. era justamente o oposto.

eu precisei de vc para fazer furos no meu guarda-chuva. e não pensei que, agora furado, ele não me protege mais quando chove.


- is it all over now baby blue?


- talvez. mas isso não é triste.



quarta-feira, 16 de junho de 2010

o que sobrou da gente é que somos o silêncio um do outro. um silêncio tão profundo que é um abraço.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Tem uma lenda indiana que diz que quando vc domina completamente uma postura de yoga, as dualidades cessam e você medita no infinito. Dominar uma postura de yoga não é algo simples. Envolve manter o alinhamento, a coluna alongada, os ombros longe das orelhas e os musculos contraidos na medida certa. Continuar respirando calma e profundamente e manter o rosto sereno. De preferencia com um leve sorriso. É atenção total no próprio corpo. Entender como ele se move durante a imobilidade. Do que ele precisa. Na maior parte das vezes, ele só precisa que a respiração seja controlada. Respiração ofegante só é boa se não for por ansiedade, medo ou esforço. Dominar a postura é estar inteiro nela. Todos os sentidos alerta pra captar o prazer que ela te dá. O prazer sutil de uma vértebra que ganha mais espaço. O prazer de não ter passado, nem planos. Não é à toa que todas as dualidades cessam. Elas não acontecem no presente.

Dá um trabalhão conseguir isso, mas vale a pena.

Essa frase nao é minha, é dele. Eu lembrei dela agora e achei que cabia para falar da postura de yoga. Mas foi dita em outro contexto.

Ele olhou pra mim e disse: dá um trabalhão construir um amor, mas vale a pena.

E eu fiquei com vontade de dizer: dá, e só vale a pena se for igual a meditar no infinito.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!!!!!!!!!!!

When you're drowning, you don't say 'I would be incredibly pleased if someone would have the foresight to notice me drowning and come and help me,' you just scream.

[frase do lennon e foto do warhol]

domingo, 2 de maio de 2010

i'm yours


and it's ok not finding the words to say it.

sábado, 1 de maio de 2010

make a plan to love me.


I won't do it, never mind.
(...)
You sound disappointed.
I'm not. It's okay. I'm going to listen to records and stuff.
Oh. That sounds fun.
Are you being sarcastic?
No, it does.
I'm really thirsty.

I stood in the doorway and tried to maintain my end of our silence while watching him scratch at calcified noodles. I was actually just standing there in love. I was not even really standing; if he had walked away suddenly, I would have fallen.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

[foto gonzalo juanes]

terça-feira, 27 de abril de 2010

meet you at the statue in an hour.

e talvez não seja por acaso que eu me lembre de vc toda vez que ouço piazza, new york catcher do belle&sebatian.

nem que haja tanta gente fazendo covers dela (where do they all belong?).

segunda-feira, 26 de abril de 2010

À sombra das meninas em flor.

Eu acho que foi nesse livro que o proust escreveu uma frase que de tanto pensar nela eu acabei memorizando. Era mais ou menos assim: todo ser é destruído quando deixamos de vê-lo e sua próxima aparição é uma nova criação, distinta da que foi imediatamente anterior e talvez de todas.

Eu pensei novamente nela hoje. Talvez pela proximidade dos seres que eu destruí.

Quando a li pela primeira vez, achei que tinha entendido. Mas hoje ela própria me pareceu diferente e soou meio indecifrável. O vazio do sentido perdido foi uma dor e isso não deveria me abalar.

Mas se o seu mistério habitar algum lugar que fica entre o hábito e a memória, talvez ele seja meu vizinho.

domingo, 25 de abril de 2010

essa música é foda e não adianta dizer mais nada porque toda a minha capacidade de expressão não lhe faria justiça.


Every step of the way, we walk the line
Your days are numbered, so are mine
Time is piling up, we struggle and we stray
We're all boxed in, nowhere to escape
City's just a jungle, more games to play
Trapped in the heart of it, tryin' to get away
I was raised in the country, I been working in the town
I been in trouble ever since I set my suitcase down
Got nothing for you, I had nothing before
Don't even have anything for myself anymore
Sky full of fire, came pouring down
Nothing you can sell me, I'll see you around
All my powers of expression and thoughts so sublime
Could never do you justice in reason or rhyme
Only one thing I did wrong
Stayed in Mississippi a day too long
Well, the devil's in the alley, mule's in the stall
Say anything you wanna, I have heard it all
I was thinking about the things that Rosie said
I was dreaming I was sleeping in Rosie's bed
Walking through the leaves, falling from the trees
Feeling like a stranger nobody sees
So many things that we never will undo
I know you're sorry, I'm sorry too
Some people will offer you their hand and some won't
Last night I knew you, tonight I don't
I need something strong to distract my mind
I'm gonna look at you 'til my eyes go blind
Well I got here following the southern star
I crossed that river just to be where you are
Only one thing I did wrong
Stayed in Mississippi a day too long
Well my ship's been split to splinters and it's sinking fast
I'm drowning in the poison, got no future, got no past
But my heart is not weary, it's light and it's free
I've got nothing but affection for all those who sailed with me
Everybody's moving, if they ain't already there
Everybody's got to move somewhere
Stick with me baby, stick with me anyhow
Things should start to get interesting right about now
My clothes are wet, tight on my skin
Not as tight as the corner that I painted myself in
I know that fortune is waiting to be kind
So give me your hand and say you'll be mine
Well, the emptiness is endless, cold as the clay
You can always come back, but you can't come back all the way
Only one thing I did wrong:
Stayed in Mississippi a day too long.

[ismael, esse post é pra vc, claro!]

sábado, 24 de abril de 2010

Terça-feira, 20 de Abril de 2010 7:48:51 Cut up auf Leben und Körper


Era só mais um dia que começava com a caixa de emails cheia. Eu sempre começo apagando os spams e abrindo os chatos. Mas qdo eu vi o seu, fui direto nele, porque já fazia meses. Ele só tinha 4 frases soltas em letras pequenas:

I wish I could talk to you.
If I would have asked you, would you have been my girlfriend?
I miss you.
There no sun still here.

Eu li mais de uma vez para prestar atenção nos verbos. E depois tentar decifrar se havia alguma relação entre essas 3 afirmações, essa pergunta e o fato de elas terem aparecido na minha caixa de correio às 7:48 da manhã de uma terça-feira. Uma delas me pareceu a mãe da outra. O desejo sempre possível e quase nunca realizado é a origem da pergunta feita muito tempo depois no pretérito do subjuntivo. Eu pensei em te responder sure, we can talk at anytime. Nós podemos e sempre pudemos. But we never did. We never do. Tem um monte de outras coisas que a gente não consegue fazer neste momento por causa da distância, mas falar não é uma delas, pois temos paliativos. Talvez vc queira dizer mais que falar quando diz falar. A frase seguinte é mais uma dessas coisas que vc gosta de construir e que têm o efeito de te afastar do presente. Vc não viveu o presente dessa frase quando ele poderia ter sido presente. E isso significa que vc não deve vivê-la no preterito do subjuntivo. A combinação desse modo e desse tempo verbais é bem perigosa e foi ela que não te deixou perguntar como eu estou me sentindo hoje. Se você só se interessa em como eu teria me sentido, eu tenho que dar um jeito de te dizer que eu não me interesso por arrependimentos. E não é só uma questão de gosto. Como teria sido se a tal pergunta tivesse sido formulada no presente há meses atrás é simplesmente algo impossível de te responder. O dado real é apenas a pergunta não feita. A pergunta não feita e o tempo perdido são uma dimensão incontornável da nossa temporalidade. Um dado histórico que por isso mesmo é também o nosso presente. Mas a resposta a uma pergunta não feita simplesmente não pode ser imaginada. Essa resposta simplesmente não pode existir. E é só por isso que eu não consegui responder ao seu email até agora.

Aqui no hemisfério sul o sol está ficando cada vez mais fraco. Mas não é por causa da escuridão que eu não consigo olhar para um passado que nunca foi presente. I wish I could talk to you either.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

comes a time

de você eu sinto saudades dos seus avós e de alguém pra conversar sobre filosofia da linguagem. essa frase pode parecer cruel, mas não é. eu acho bonita.


terça-feira, 20 de abril de 2010

Será que dor é o nome verdadeiro disso que a gente chama de dor?

- você é engraçada; sempre precipita os fins.
- é. eu tenho sim esse impulso de destruir as coisas antes da hora.
- por que?
- acho que é porque eu tenho medo de dor. isso sempre explica muita coisa sobre mim.
- tá, mas prá que antecipar?
- sei lá.
- posso te fazer uma pergunta meio exagerada?
- pode.
- vc já sabe que vai morrer. vc quer antecipar ou quer viver?
- viver.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

something.

Curtir fossa numa noite de sábado é um clichê. Porque sábado à noite é o dia oficial de todos os clichês. Prefiro evitar, mas até entendo quem curte. Por isso prá saber o quanto a sua vida ficou careta, melhor não olhar para o sábado à noite e sim pras noites de segunda-feira. Marcamos uma despedida para hoje. Ontem eu tentei comprar legumes orgânicos para a nossa última janta juntos, mas não rolou. Acordei tarde demais e quando cheguei lá já estavam recolhendo a feira. É uma cena desoladora a de uma feira sendo desmontada. Um dos caras deve ter sacado a minha decepção e veio falar comigo. Sim, era mesmo tarde demais, mas ele me deu de presente quatro milhos, duas cenouras, um maço de alface e um de nabo. O que já é uma salada. E pelo menos valeu pelo rolê no parque. O dia tava lindo e os velhinhos seresteiros não estavam tocando nem sertanejo, nem Roberto. Estavam bombando no Jorge Ben e eu achei isso bem legal. Nem é do tempo deles. Também não é do meu e eu curto. Curto ouvir por aí, porque afinal esse é justamente o disco que eu não tenho mais. O homem da gravata florida foi embora. Eu poderia ter ficado ali o dia todo, mas acabei indo pro bexiga, com medo de perder os vinis. Tava com o dinheiro contado, porque esqueci de passar no caixa eletrônico, mas deu pra levar 4 do Paul & Linda e um do Cat Stevens que eu ainda não conhecia. Não tinha Zappa. Por isso eu resolvi explorar melhor o Paul e a Linda. É uma vibe mais inocente e mais alegre. Sinal de que nem todo domingo precisa acabar com John & Yoko para ser bom.

Eu não saí com você, mas fui beber numa rua com o seu nome. Foi coincidência, mas quando nos ligamos disso, achamos que esse seria um verso lindo para uma música. E essa seria uma música meio Lupicínio.

Hoje eu consegui acordar cedo e ir para a aula de yoga. Eu tava morrendo de sono e adormeci no relaxamento final. Acordei porque alguém esqueceu o celular ligado e ele tocou no meio do silêncio das respirações descoordenadas. O ringtone era all the lonely people e não something.

A moral da história é que nem sempre podemos escolher a trilha-sonora dos nossos dias.