sábado, 22 de novembro de 2008

Schnee




Eu acordei tarde e demorei muito para arriscar sair do meu quarto. Eu já morei neste lugar. No quarto da frente. Por muito tempo. Numero 513. Agora sou numero 515. Mas divido a mesma cozinha. Que tem o mesmo mau cheiro de 2 anos atrás. Coloquei meu pé ao lado do aquecedor e fiquei olhando pela janela. A paisagem, dessa vez, é diferente. Daqui, eu vejo a floresta negra. Uma floresta de eucaliptos, provavelmente replantados, mas muito densa. Ela ainda está verde, mas já há algumas árvores com cores estranhas. Que destoam. Minha pele tem uma cor estranha hoje. Os eucaliptoa se adaptam bem ao inverno, mas visivelmente não estão em seus melhores dias. Talvez isso valha para mim também. Enquanto olhava pela janela, começaram a cair os primeiros flocos de neve. E eu de repente achei que esse é um jeito muito bonito de ser recebida em um novo pais. Me animei a sair na rua e presenciar a beleza efêmera dos flocos de neve. Eles não caem com a violência dos pingos de chuva. Têm uma leveza incrível, brincam ao vento antes de caírem no chão e se tornarem sujeira definitivamente. Não estava frio o suficiente para que a neve se acumulasse no chão. Eu me surpreendi o dia todo comigo mesma desejando que a temperatura baixasse. E isso acaba de acontecer. Acaba de nevar seriamente nesta cidade. A primeira neve deste inverno. E você não está aqui para ver. Você perdeu a coisa mais linda que o frio poderia nos dar.

Saí para caminhar. É quase meia noite e não há ninguém nas ruas. Apenas pegadas de pessoas e bicicletas. Agora eu tenho provas de que não estou sozinha nesta cidade. Eu gosto de fazer caminhos novos na neve e sentir meu pé afundando. E olhar para trás e perceber que eu também deixo provas da minha própria existência. Mesmo que ninguém se importe. Os carros estão cobertos de neve. As árvores também. Faz um silêncio absurdo fora e dentro de mim. Faz um frio absurdo fora e dentro de mim. Eu fico triste em pensar que amanhã essas pequenas montanhas de neve podem se transformar em sujeira. Será apenas mais um segredo que a noite esconderá do dia.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

I don't.

Freiburg, Alemanha. First impressions from earth. Na viagem de trem, eu sentei na janela e deixei que as paisagens me atravessassem. Chovia e os pingos grudavam na janela. Eu não tinha força para chorar e a chuva chorava por mim. Você já me contou dessa sensação e só agora eu compreendi. Ela só pode ser vivida completamente deste lado do hemisfério mesmo. Ela só pode ser vivida em cinza. Eu já conhecia o meu destino. Nos mais pequenos detalhes. E estava tudo no mesmo lugar. Só eu não. Hoje fez o dia mais frio do inverno alemão. É um jeito bem esquisito de ser recebida. Anoiteceu cedo e eu tive um pressentimento ruim. Eu me senti vazia e tive saudades. Percebi que minha alma não veio comigo e eu senti falta dela. I don’t dare.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Avalanche

"Et le Temps m'engloutit minute par minute,
Comme la neige immense un corps pris de roideur;
— Je contemple d'en haut le globe en sa rondeur
Et je n'y cherche plus l'abri d'une cahute.

Avalanche, veux-tu m'emporter dans ta chute?"

Esse trecho é de um dos poemas que mais gosto de Baudelaire (le gout du néant). O último verso exerce sobre mim um fascínio especial. Ele me atrai de um modo tão primitivo e profundo quanto a atração que eu sinto pelo chão quando eu o olho desde o décimo quarto andar do meu edificio. É como sentir ao mesmo tempo o prazer da vertigem, a adrenalina do perigo e a proteção da morte. Quando me sinto engolida pelos dias e soterrada por uma avalanche de coisas prosaicas que caem secamente sobre mim, eu paradoxalmente penso na poesia de Baudelaire...e repito baixinho várias vezes: veux-tu m'emporter dans ta chute? É uma forma de resistência. Com glamour....

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Deleuze



"Como cada um de nós era vários, já era muita gente"

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Gesang zwischen dir und mir

siehst du den Abendstern?
ich sehe
hörst du den Wind?
ich höre
fühlst du die Ewigkeit?
ich fühle
und dein Name?
nenne mich Nacht
woher kommst du?
aus deiner Einsamkeit
wohin gehst du?
in deine Innigkeit
gib mir die Hand

(Friederike Mayröcker)

sábado, 11 de outubro de 2008

My own private Everest


É preciso viver com a certeza de que envelheceremos e não será bonito, nem bom, nem alegre. E pensar que é agora que importa: construir agora, alguma coisa, a qualquer preço, com todas as nossas forças. Sempre ter na cabeça o asilo de idosos a fim de nos superarmos a cada dia, para tornar cada dia imperecível. Escalar passo a passo nosso próprio Everest e fazê-lo de tal modo que cada passo seja um pouco de eternidade.