sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
Não sei se é certo eu habitar o seu lugar sem pedir licença. Uma vez que você me trouxe para dentro do que é seu, me sinto, de alguma forma, livre para percorrê-lo. Assim como você é a vitrola, assim como você é o tapete verde e a árvore do outro lado do vidro, eu também sou as suas palavras e poucas coisas me deixam mais tranqüilo do que escutar de volta os ecos da minha própria voz. Quando atinjo o topo da montanha eu também preciso gritar bem alto e esperar que alguém responda. E eu também sorrio aliviado quando quem responde é a minha voz avançando distancias. Quando leio os seus textos é como se a minha voz tivesse finalmente parado de ecoar no espaço e finalmente encontrado um lugar para descansar. E ser ela sem mais ter que ser. Como as pessoas quando mudam, ela também deixa de ser. Para continuar sendo.
quinta-feira, 4 de dezembro de 2008
Skinny love
You sent me this song and I just don’t know what to do with all that. It’s too much. Too much unspoken to fit my small solitude. I’m sinking in it. It sounds like old times. It reminds me what I never had. It seems I’m living inside it for many years. My eyes fixed on this song every moment of the evening. Starring it was too strong and I always ended up crying. I took the risk of crying in front of strangers and I don’t care. My self-protection was just too weak to deal with this strange voice coming through the dark air, surrounded by claps. I was not insulated enough against real hurt. Against you don’t caring. Against feeling my nose bleeding again.
I’m not patient. I’m not fine. I’m not balanced.
I’m not patient. I’m not fine. I’m not balanced.
Cut out all the ropes and let me fall
O lugar onde eu habito também é um mistério para mim. Eu o estou descobrindo aos poucos novamente. Eu estava errada quanto aos lugares permaneceres iguais. Nunca se pode estar em um mesmo lugar duas vezes. Porque os lugares dependem de nós para existir e nós nunca somos os mesmos duas vezes. Isso nos coloca de novo diante da velha questão existencial sobre se as coisas permanecem lá quando não estamos olhando para elas. Nunca saberemos. Apenas supomos. Uma crença como qualquer outra. Mas eu não quero falar de crenças. Quero falar da experiência de viver a situação complexa de estar entre memória e presente. De não estar mais no mesmo lugar, por não conseguir repetir o mesmo ângulo de visão. De perceber que tudo se faz novo. O novo e o velho são igualmente submetidos ao mesmo exercício de renovação que acontece com o olhar seguinte de uma pessoa que é diferente da que olhou antes. Não é uma questão de decisão. Não é possível repetir o mesmo. Aquele que se diz o mesmo está blefando. No mínimo, se diferencia do que foi antes porque carrega agora o peso da continuidade. O fardo triste da continuidade. O dado da não mudança já o faz outro. Mais pesado talvez. Mais cansado de lutar contra o sentido natural da vida. Por isso eu não acredito em repetições. Elas nunca acontecem de fato. A lembrança e a promessa sempre se interpõem entre os atos que se dizem repetir. A segunda vez nunca será a primeira. E será também diferente da próxima. Ainda que nos esforcemos para. E logo vem o momento decisivo em que um conjunto de atos de repente pode ser chamado de hábito. Uma sentença declaratória sem limite definido. Lógica fuzzy aplicada à cotidianeidade. Uma vez um professor me explicou o que é isso propondo a seguinte pergunta: quantos fios de cabelos é preciso restar em uma cabeça para que finalmente possamos chamar um homem de careca? Não há um critério quantitativo possível. Eu não gosto de critérios pré-estabelecidos. Chamo de hábito qualquer coisa que tenha vontade de viver novamente. Como se esse status me trouxesse a garantia de que vou realizar um desejo. Eu gosto de hábitos. E gosto ainda mais deles agora que sei que não são repetições. Eles revelam coisas muito especiais sobre cada um que os adota. Pequenas portas para subjetividades incríveis. Você tem o hábito de ouvir vinis e talvez eu também o teria se tivesse finalmente comprado a minha vitrola. Então eu adquiri o hábito de ir na sua casa ouvir vinis e dançar na sua sala. E pouca coisa neste mundo me faz me sentir tão livre quanto ter o hábito de dançar na sua sala. Parece paradoxal, mas não é. Uma vez nunca é igual à outra. Você sempre tem músicas novas para me mostrar e sempre consegue manipular os meus sentimentos com a sua música. Cria montanhas de sensações e depois as derruba. Me faz subir bem alto e depois corta a corda para que eu possa sentir a sensação mágica da gravidade. Schmetterling im Bauch. Atraídas pela sua música, as borboletas escapam por nossas bocas e voam pela sala, voam pela janela. Pousam na árvore que fica em frente a sua janela e presenciam silenciosamente o ritual rebelde do hábito. Nesta noite eu habitei a sua sala. E poderia acampar no seu tapete verde, ao lado da sua vitrola, sem nunca me entediar.
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
There's a kind of darkness here
Era fim de tarde no domingo e eu achei que pudesse enganar a solidão. Eu achei que se eu cansasse o meu corpo, minha cabeça também se acalmaria e eu poderia dormir. Então decidi correr pelo caminho que leva à floresta, seguindo o trilho do trem. O trem parado na estação e eu podia olhar dentro dos vagões e reparar nas pessoas que estavam sentadas ali. Elas pareciam protegidas pela luz amarela que já estava acesa embora ainda não fosse noite. Pela calefação que as aquecia. Por seus companheiros e filhos. Por seus livros. Por terem um destino certo. A paisagem do trilho do trem depois que ele passa é sempre triste. Um caminho já sem promessas, que eu perseguia sozinha. Carcaças abandonadas ao tempo, que eu testemunhava em meu silêncio triste. Eu logo me afastei da cidade e subi pelo Waldweg. Ficava cada vez mais frio dentro da floresta onde o pouco sol que tivemos durante o dia provavelmente não havia podido penetrar. Eu achei que pudesse enganar a natureza. Eu achei que teria energia suficiente para aquecer o meu corpo. Mas a temperatura baixou rapidamente e eu estava longe. A floresta me atraía, como a morte. E eu tive que levar a sério um dialogo comigo mesma em bases pretensamente racionais para me convencer que a melhor coisa a fazer era voltar. Eu tentei fazer o caminho de volta correndo o mais rápido que podia. Eu tentei elevar a temperatura do corpo com o esforço que fazia, mas isso não era suficiente. Ninguém vence um frio de graus negativos só com a boa vontade do metabolismo. Muito menos eu. Eu sempre achei o meu metabolismo lento. Quando eu precisei de ar, ele estava gelado. Era já quase matéria e doía quando abria caminho pelo meu corpo. Eu ficava cada vez mais cansada e minha respiração mais rápida e ofegante. E assim eu fazia entrar cada vez mais ar congelante no meu corpo. Maldito círculo vicioso congelando minha garganta e meus pulmões. Formando pedras de gelo doloridas em meu peito. O gato preto finalmente pulou nas minhas costas e eu senti de uma vez todo o medo que se pode sentir quando se está diante de um gigante. Eu chorava e as minhas lágrimas gelavam o meu rosto. Eu senti o terror me paralisando. O que aconteceria se eu não conseguisse voltar a tempo ou se eu simplesmente desistisse? Eu seria só mais um número na cota dos mortos em razão de fenômenos naturais. Como os que se afogam nas enchentes. Poderiam até dizer que eu morri de morte natural. A floresta seria inocentada. Eu havia empreendido uma demonstração esquisita de coragem e desprendimento e deveria assumir a responsabilidade de ter desafiado a natureza e me arrependido quando já era tarde. Como aqueles que se jogam da ponte e não podem mais voltar. Eu sempre me pergunto sobre a última coisa que eles puderam pensar. Eu não pensava em nada, só tentava voltar atrás. Eu corria na direção contraria do trem e quando a luz brilhante do seu farol passou por mim novamente ela não me aqueceu. O seu barulho nem sequer se diferenciou do barulho amplificado da angustia ecoando dentro da minha cabeça. Eu escondia as minhas mãos na manga da minha blusa e apertava forte. Eu costumo fazer isso quando sinto que posso escapar pelos dois buracos da manga. É uma tentativa de permanecer. Quando eu finalmente cheguei em casa, minhas mãos tremiam tanto que foi muito difícil encaixar a chave no buraco da fechadura. Eu a deixei cair duas vezes no chão, porque não sentia mais minhas mãos. Meu corpo inteiro tremia de uma febre fria. Eu passei mais de uma hora embaixo da água quente, tentando retomar o ritmo da minha respiração. E eu não conseguia parar de sentir frio. Havia pedras de gelo dentro de mim que demoraram para derreter. Havia uma espécie de escuridão profunda em mim. A escuridão que me levou para o meio da floresta congelada. A mesma escuridão que fez você ter medo a tantos quilômetros de distância, no mesmo fim de tarde melancólico de domingo. O mesmo medo de quem toca a escuridão. A mesma escuridão pela qual nos apaixonamos.
Uma cerimônia solene de desocultamento
Você veio conhecer o meu mundo. E caminhou por ele como se já conhecesse. Quando eu enfim te reconheci, era como se já não houvesse surpresas. Eu te levei aos lugares certos e te mostrei as paisagens certas. As escolhas que agradariam a mim mesma, já que quase sempre observamos o espaço exterior do mesmo ângulo e fixamos nossa atenção nas mesmas coisas. Talvez mais que mero acaso. A alegria de te encontrar poderia ser a alegria de encontrar a si mesmo pelo mundo. Reconhecer-se para além de si. Desafiar a atomicidade. Alterar os limites das coisas. Irradiar. Talvez sejam esses os desejos primários de todos nós. O fundamento da socialização e o fundamento de tantas frustrações. A origem da solidão: um alter que não encontra um ego e desaparece. Encapsula-se em suas necessidades individuais básicas até que um dia simplesmente não estará mais lá. Não aparecerá mais no trabalho. Abandonará a família. Passará pela portaria sem ser visto. Falará sozinho até que sua voz se transforme no barulho do vento.
Tantos mortos precocemente por não reconhecerem o desejo pelo outro no desejo de si e de sobreviver a si. Sobreviver nas coisas que escrevemos e que desenhamos. Nas fotos que tiramos, nas histórias que inventamos, nas paisagens que construímos. Desafiando as patologias dos nossos próprios egos, testamos as coincidências e repassamos as semelhanças. Exercitamos telepatia. Fingimos para os outros que somos um só. Expomos a cumplicidade a toda espécie de desafio, para saber que ela estará sempre lá. Brincamos de descrever as imagens que guardamos na memória, para ter certeza de que teremos o mesmo repertório nos momentos de nostalgia. Uma caixa de primeiros socorros para as noites difíceis. Um dèja vu de si mesmo em estado de calma. Como os coelhos de Alice que romperam com o tempo na hora do chá, poderíamos passar a vida toda ao redor de duas xícaras. Bastando-nos e sendo de novo capazes de rir do resto do mundo.
Tantos mortos precocemente por não reconhecerem o desejo pelo outro no desejo de si e de sobreviver a si. Sobreviver nas coisas que escrevemos e que desenhamos. Nas fotos que tiramos, nas histórias que inventamos, nas paisagens que construímos. Desafiando as patologias dos nossos próprios egos, testamos as coincidências e repassamos as semelhanças. Exercitamos telepatia. Fingimos para os outros que somos um só. Expomos a cumplicidade a toda espécie de desafio, para saber que ela estará sempre lá. Brincamos de descrever as imagens que guardamos na memória, para ter certeza de que teremos o mesmo repertório nos momentos de nostalgia. Uma caixa de primeiros socorros para as noites difíceis. Um dèja vu de si mesmo em estado de calma. Como os coelhos de Alice que romperam com o tempo na hora do chá, poderíamos passar a vida toda ao redor de duas xícaras. Bastando-nos e sendo de novo capazes de rir do resto do mundo.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Beruf: Master

"Ich denke, ich war bissexuell. Ich habe einfach viel experimentiert. Die Idee, in eine neue Art von Sexualität involviert zu sein, war sehr verlockend für mich, wie ich jedes Tabu anziehend fand. Heute wäre es vermutlich sehr schwierig, solche abenteuerlich Wege zu gehen. Ich würde es hassen, heute 18 Jahre alt zu sein und nicht die Möglichkeit zu haben, meine Sexualität zu erkunden. Das ist eine Beeinträchtigung der natürlichen Fülle des Lebens" Bowie, 2003.
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