quarta-feira, 11 de março de 2009

raio verde

Eu já estou no meio de uma nova semana e o tempo passou por mim na velocidade de um veludo macio. E foi tão rápido que parecia estar parado. Há certos movimentos que não podemos captar com os nossos olhos e por isso são como se fossem estado de repouso. Se não podemos ver a diferença, ela não existe. Algumas pessoas passaram por mim e eu nem notei. Algumas não me notaram. Há um tipo sutil e frágil de beleza na discrição. A beleza das existências que estão quase a se apagar. Efêmeras e transitórias como o vaga-lume que se afasta na noite. Primeiro, seu brilho fraco se confunde com o das estrelas e nos enche de esperanças. Achamos que finalmente veremos as estrelas voarem e poderemos tocá-las. Mas ele logo se perde na escuridão. Aos poucos sua luz reiterante vai se borrando. Vai virando uma linha fina e decrescente. Um interlúdio de luz verde que deixa rastros fracos de realidade. Seres desse tipo são feitos para se perderem e transformarem beleza em memória. Existem para acharmos que nunca existiram.

domingo, 8 de março de 2009

Para o Arcebispo de Olinda, uma das personalidades mais cruéis e desumanas de que tive notícia, dedico uma frase de uma das pessoas mais luminosas e humanas de nosso tempo:

"Não se deve confundir a vida das formas com as formas da vida", Jean Cocteau

sexta-feira, 6 de março de 2009

a family of trees

Hoje eu recebi o seguinte email da minha mãe e eu pude entender de onde eu saí.

"Re: Fernando Pessoa
Veja que trecho maravilhoso do livro:
'Os sentimentos que mais doem, as emoções que mais pungem, são os que são absurdos - a ânsia de coisas impossíveis, precisamente porque são impossíveis, a saudade do que nunca houve, o desejo do que poderia ter sido, a mágoa de não ser outro, a insatisfação da existência do mundo. Todos estes meios tons da consciência da alma criam em nós uma paisagem dolorida, um eterno sol-pôr do que somos'
Beijos, beijos
Mae"

segunda-feira, 2 de março de 2009

blue monday



Da minha janela eu também olho as pessoas no prédio em frente. Dois homens sentados na varanda conversando. Eu suponho que um deles seja mais velho que o outro, por causa da sua postura curvada. Mas em seguida eu penso que pessoas novas também podem sentar-se com as costas curvadas. Como eu depois de ficar horas trabalhando sem vontade na frente do computador. Uma forma de envelhecimento precoce. No andar de baixo, há uma mulher brincando com seu cachorro. Um cachorro de porte médio em um apartamento que aparentemente é bem pequeno. Ela aparentemente mora sozinha. Eu acho que nos dias de hoje o cachorro é o grande responsável pela manutenção da auto-estima das pessoas em níveis minimamente salubres. É o paliativo perfeito para os solitários e carentes crônicos. Aqueles cuja existência não tem justificativa melhor que a de alimentar seu único amigo. Aqueles que não são amados suficientemente. Habitamos ainda a mesma segunda-feira. Um dia que não deveria ter existido e não parece ter hora para acabar. Às vezes eu penso que o passar do tempo não se mede por horas, nem por dias, semanas, meses ou anos. Mas sim por dias de solidão e de tristeza. Dias compridos que se alargam e se deformam como fantasmas. Eu me pergunto quantos dias como esse nós já passamos desde que vimos pulp fiction no cinema. E acho que essa é a resposta exata da nossa idade. Eu me preocupo bem menos com a idade desde que cheguei à conclusão de que pessoas como nós só conseguem olhar para si mesmos e se sentir felizes porque sabem que encontrarão a dose certa de solidão e tristeza. A capacidade destrutiva necessária para desafiar o que está a nossa volta e impedir que nos entediem. Eliminar a todo o momento os vestígios de nós mesmos e do mundo para ver o que nascerá de novo. Quais novos caminhos se abrirão. Fique tranqüilo, porque sob o solo destruído tudo acontece de novo pela primeira vez.

domingo, 1 de março de 2009

Ou est passé la réalité?

Na sua festa, eu olhei para as pessoas ao meu redor e comecei a dividi-las em dois grupos: aqueles que dançam conforme a técnica e aqueles que se movem por puro instinto. É claro que eu estava criando tipos ideais que não existem, não são puros e não definem um ser, mas sim um estado. Mas esses estados me pareceram reais naquele momento. Tudo começou quando eu observava a beleza perturbante do seu corpo se movendo sem controle. Fora do ritmo, como se estivesse aprisionado em um transe interno. Eu o comparava com nosso jeito menos agressivo de nos mover. Mais compassado. Talvez mais inocente. Ainda tínhamos a percepção do mundo exterior, do espaço que ocupávamos, do ritmo da música. Quando eu fechava os olhos, eu podia ainda imaginar a disposição dos móveis e das pessoas ao meu redor. Eu podia pensar nelas. Havia consciência ainda. Mesmo que improvisada e espontânea, nossa coreografia tinha ainda um sentido. E isso quer dizer que ainda podíamos controlar os impulsos e enviar comandos aos nossos membros desde o nosso cérebro. Depois disso eu não me lembro mais de muita coisa. Eu tenho a impressão de que posso ter dormido na pista, enquanto meu corpo ainda se movia. Eu me pergunto se esses movimentos produzidos em estado de quase sonambulismo chegaram a se parecer com os seus. Quando eu acordei, eu me dei conta de que já estava vivendo em um mundo com temporalidade diferente. Era eu quem determinava o ritmo das coisas, inclusive dos meus passos. Não seria mais obrigada a adaptar o meu metabolismo a referências externas. Eu me perguntei se isso seria um sonho, mas achei que não. Afinal, não há nada mais real que isso. Nada mais real que ouvir o seu próprio corpo e determinar a velocidade da sua vida. Por isso eu penso em você dançando e acho que talvez você tenha sido a pessoa mais real daquela festa. A mais verdadeira com você mesmo. Eu me lembro de ter lido uma vez um texto que falava das pessoas que se negavam a comer de manhã, porque a comida as faria voltar depressa à realidade e se despedir dos sonhos. Nos primeiros momentos da manhã, ainda nos movemos em uma mistura cinzenta entre o onírico e o real. Há um fog espesso acolhendo nossos movimentos lentos e preguiçosos. Interceptando o excesso de luz que pode machucar nossos olhos. Ainda pensamos no que acabamos de viver como se estivéssemos dentro do próprio sono. É o café quente, preto e amargo que ingerimos ainda nas primeiras horas da manhã que arbitrariamente define o que é sonho e realidade. Define externamente os nossos ritmos vitais. Não devemos acreditar sempre nessas definições. Não devemos aceitá-las passivamente. Por isso, não devemos contar nossos sonhos quando já está claro. Melhor guardá-los como segredos. Quando os nomeamos sonhos, traimos a nós mesmos. Assim como quando dançamos em um ritmo que não é o nosso.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Para homens

Convencer é infrutífero.

If happiness came I miss the call

They say an end can be a start. Feels like I've been buried yet I'm still alive. It's like a bad day that never ends. I feel the chaos around me. A thing I don't try to deny. I'd better learn to accept that. There are things in my life that I can't control. They say love is nothing but a sore. I don't even know what love is. Too many tears have had to fall. Don't you know I'm so tired of it all. I have known terror dizzy spells. Finding out the secrets words won't tell. Whatever it is it can't be named. There's a part of my world that' s fading away. You know I don't want to be clever, to be brilliant or superior. True like ice, true like fire. Now I know that a breeze can blow me away. Now I know there's much more dignity in defeat than in the brightest victory. I'm losing my balance on the tight rope. Tell me please if I ever feel better. Remind me to spend some good time with you. You can give me your number, when it's all over I'll let you know. Hang on to the good days, I can lean on my friends. They help me going through hard times. But I'm feeding the enemy. I'm in league with the foe. Blame me for what's happening. I can't try. No one knows the hard times I went through. If happiness came I miss the call. The stormy days aren’t over. I've tried and lost. Now I think that I pay the cost. Now I've watched all my castles fall. They were made of dust, after all. Someday all this mess will make me laugh. I can't wait… When it's all over I'll let you know. It's like somebody took my place. I’m not even playing my own game. The rules have changed well I didn't know. There are things in my life I can't control. I feel the chaos around me. A thing I don't try to deny. I'd better learn to accept that there's a part of my life that will go away. Dark is the night, cold is the ground in the circular solitude of my heart. As one who strives a hill to climb, I am sure I'll come through I don't know how. They say an end can be a start...