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terça-feira, 5 de janeiro de 2010
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
She got our pain.
Não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro. Nem sei como lhe explicar minha alma. Mas o que eu queria dizer é que a gente é muito preciosa, e que é somente até um certo ponto que a gente pode desistir de si própria e se dar aos outros e às circunstâncias. Depois que uma pessoa perde o respeito a si mesma e o respeito às suas próprias necessidades - depois disso fica-se um pouco um trapo.
Eu queria tanto, tanto estar junto de você e conversar e contar experiências minhas e dos outros. Você veria que há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo. Eu mesma não queria contar a você como estou agora, porque achei inútil. Pretendia apenas lhe contar o meu novo caráter, um mês antes de irmos para o Brasil, para você estar prevenida. Mas espero de tal forma que no navio ou avião que nos leva de volta eu me transforme instantaneamente na antiga que eu era, que talvez nem fosse necessário contar. Querida, quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma num boi? Assim fiquei eu... em que pese a dura comparação... Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões - cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também minha força. Espero que você nunca me veja assim resignada, porque é quase repugnante. Espero que no navio que me leve de volta, só a idéia de ver você e de retomar um pouco minha vida - que não era maravilhosa mas era uma vida - eu me transforme inteiramente.
Uma amiga, um dia, encheu-se de coragem, como ela disse e me perguntou: "Você era muito diferente, não era?". Ela disse que me achava ardente e vibrante, e que quando me encontrou agora se disse: ou esta calma excessiva é uma atitude ou então ela mudou tanto que parece quase irreconhecível. Uma outra pessoa disse que eu me movo com lassidão de mulher de cinqüenta anos. Tudo isso você não vai ver nem sentir, queira Deus. Não haveria necessidade de lhe dizer, então. Mas não pude deixar de querer lhe mostrar o que pode acontecer com uma pessoa que fez pacto com todos, e que se esqueceu de que o nó vital de uma pessoa deve ser respeitado. Ouça: respeite mesmo o que é ruim em você - respeite sobretudo o que você imagina que é ruim em você - pelo amor de Deus, não queira fazer de você mesma uma pessoa perfeita - não copie uma pessoa ideal, copie você mesma - é esse o único meio de viver.
Juro por Deus que se houvesse um céu, uma pessoa que se sacrificou por covardia - será punida e irá para um inferno qualquer. Se é que uma vida morna não será punida por essa mesma mornidão. Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo aquilo que sua vida exige. Parece uma vida amoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma. Espero em Deus que você acredite em mim. Gostaria mesmo que você me visse e assistisse minha vida sem eu saber. Isso seria uma lição para mim. Ver o que pode suceder quando se pactua com a comodidade de alma. Tua, Clarice.
(Carta à irmã Tania Kaufmann, Berna, 2 de janeiro de 1947)
Eu queria tanto, tanto estar junto de você e conversar e contar experiências minhas e dos outros. Você veria que há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo. Eu mesma não queria contar a você como estou agora, porque achei inútil. Pretendia apenas lhe contar o meu novo caráter, um mês antes de irmos para o Brasil, para você estar prevenida. Mas espero de tal forma que no navio ou avião que nos leva de volta eu me transforme instantaneamente na antiga que eu era, que talvez nem fosse necessário contar. Querida, quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma num boi? Assim fiquei eu... em que pese a dura comparação... Para me adaptar ao que era inadaptável, para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus grilhões - cortei em mim a forma que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também minha força. Espero que você nunca me veja assim resignada, porque é quase repugnante. Espero que no navio que me leve de volta, só a idéia de ver você e de retomar um pouco minha vida - que não era maravilhosa mas era uma vida - eu me transforme inteiramente.
Uma amiga, um dia, encheu-se de coragem, como ela disse e me perguntou: "Você era muito diferente, não era?". Ela disse que me achava ardente e vibrante, e que quando me encontrou agora se disse: ou esta calma excessiva é uma atitude ou então ela mudou tanto que parece quase irreconhecível. Uma outra pessoa disse que eu me movo com lassidão de mulher de cinqüenta anos. Tudo isso você não vai ver nem sentir, queira Deus. Não haveria necessidade de lhe dizer, então. Mas não pude deixar de querer lhe mostrar o que pode acontecer com uma pessoa que fez pacto com todos, e que se esqueceu de que o nó vital de uma pessoa deve ser respeitado. Ouça: respeite mesmo o que é ruim em você - respeite sobretudo o que você imagina que é ruim em você - pelo amor de Deus, não queira fazer de você mesma uma pessoa perfeita - não copie uma pessoa ideal, copie você mesma - é esse o único meio de viver.
Juro por Deus que se houvesse um céu, uma pessoa que se sacrificou por covardia - será punida e irá para um inferno qualquer. Se é que uma vida morna não será punida por essa mesma mornidão. Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo aquilo que sua vida exige. Parece uma vida amoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma. Espero em Deus que você acredite em mim. Gostaria mesmo que você me visse e assistisse minha vida sem eu saber. Isso seria uma lição para mim. Ver o que pode suceder quando se pactua com a comodidade de alma. Tua, Clarice.
(Carta à irmã Tania Kaufmann, Berna, 2 de janeiro de 1947)
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
a enunciação da localização geográfica de nossos corpos é só uma parte da história. é quase um aparato metafórico para o que realmente importa. os nossos jogos de migrações e permanências são bem mais complexos e eles não têm nada a ver nem com limites, nem com dissolver nossas vidas em idéias. ao contrario. são bem reais. são outras formas de experimentar a liberdade. e a destruição é o começo de tudo.
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
the boxer
eu falei com o meu pai sobre simon & garfunkel e ele me disse que sua preferida era mrs. robinson. combina mesmo com ele. mas ambos reconheceram quando eu cantei the boxer. essa semana eu encanei com essa musica. quando ela aparecia era como se a vitrola quisesse me dizer algo. quando eu resolvi prestar atenção na letra, eu entendi que era mesmo a musica sincronicamente colocada no momento certo. eu me assustei e você achou normal. com o fato de que há 40 anos alguém cantou a mesma coisa que cantamos hoje. chegamos todos às mesmas conclusões e elas não são tão triviais assim. eu só me pergunto se isso aconteceu mesmo há 40 anos ou tudo está acontecendo agora. pensando bem me parece natural que o passado simplesmente não exista fora do presente. que só exista o presente e por isso se uma frase dita há 40 anos salta agora da minha vitrola é porque na verdade essa frase está sendo dita agora. ela só existe no exato momento em que chega até mim. e para entender isso vc primeiro pensa no conceito de comunicação e na dependência intrínseca de bilateralidade. e em seguida faz ele atravessar o tempo. para um anjo cantar, é preciso que alguém esteja disposto a ouvi-lo. e isso é atemporal. dizer coisas que um dia soarão familiares e reconfortantes para alguém ao lado de sua vitrola é ser eterno. e para correr o risco de ser eterno basta dizer. basta se arriscar a dizer algo para já não se ter controle sobre a finitude da própria existência. mas de todo o jeito, ainda que não se admita tão explicitamente, nós não temos mesmo muito controle sobre a nossa existência. por isso eu não me assusto quando descobrimos aos poucos nossas vidas repetindo vidas de 40 anos atrás. ou quando descobrimos nossos olhares nos olhos do cantor folk ou nos olhos azuis da garota que mora sozinha no brooklin e grava programas de rádio em duas vozes. não é à toa que um dos meus filmes preferidos é a dupla vida de veronique. e quem disse que meus olhos não são azuis-escuros?
viajar é ir verificar algo inexprimível que vem da alma, de um sonho ou de um pesadelo. eu li alguma vez alguém falando isso, e agora penso que também vale para quando viajamos no tempo. vale para quando queremos viver agora o que existiu há quarenta anos. ser o antes e o depois ao mesmo tempo, sem precisar começar de novo. pois se tempo é só deslocamento no espaço e estamos gritando para todo mundo que não dependemos disso; que a força do nosso pensamento é mais importante do que o espaço físico. então, é só seguir em qualquer direção. é só seguir acreditando nos prazeres platônicos de um mundo sem toques. ou de toques delicados, que voam no vento.
nada demais aconteceu com nós mesmos. no fundo seguimos os mesmos, diferentes. quando eu era criança e ouvia alguém dizendo que tinha mais de trinta, não estava no meu campo de possibilidades imaginar eu mesma com essa idade. eu não podia imaginar um monte de coisas. não faz muito tempo que as coisas com as quais eu sonhava só existiam no tempo de um suspiro. mas agora é como se o tempo congelasse bem no momento desse suspiro. elas existem e, ao contrário do que eu pensava, tudo continua igual. notamos isso quando eu ainda não havia ouvido the boxer direito. sim, é preciso prestar atenção nas letras também. vc se sentia normal diante do extraordinário e me perguntava se isso estava certo. normal, eu acho que isso significa apenas que mudamos tanto que agora conseguimos ver o que somos. e ser. “é preciso permanecer para mudar”, vc diz e eu concordo. eu também diria que precisamos mudar para permanecer. nada mudou desde que eles compuseram the boxer em 1968 ou desde que eles a cantaram no central park. em 81. embora tudo esteja diferente. now the years are rolling by me, they are rocking even me, i am older than i once was, and younger than i’ll be, that’s not unusual, no it isn’t strange, after changes upon changes, we are more or less the same…
não, eu também não acho estranho.
viajar é ir verificar algo inexprimível que vem da alma, de um sonho ou de um pesadelo. eu li alguma vez alguém falando isso, e agora penso que também vale para quando viajamos no tempo. vale para quando queremos viver agora o que existiu há quarenta anos. ser o antes e o depois ao mesmo tempo, sem precisar começar de novo. pois se tempo é só deslocamento no espaço e estamos gritando para todo mundo que não dependemos disso; que a força do nosso pensamento é mais importante do que o espaço físico. então, é só seguir em qualquer direção. é só seguir acreditando nos prazeres platônicos de um mundo sem toques. ou de toques delicados, que voam no vento.
nada demais aconteceu com nós mesmos. no fundo seguimos os mesmos, diferentes. quando eu era criança e ouvia alguém dizendo que tinha mais de trinta, não estava no meu campo de possibilidades imaginar eu mesma com essa idade. eu não podia imaginar um monte de coisas. não faz muito tempo que as coisas com as quais eu sonhava só existiam no tempo de um suspiro. mas agora é como se o tempo congelasse bem no momento desse suspiro. elas existem e, ao contrário do que eu pensava, tudo continua igual. notamos isso quando eu ainda não havia ouvido the boxer direito. sim, é preciso prestar atenção nas letras também. vc se sentia normal diante do extraordinário e me perguntava se isso estava certo. normal, eu acho que isso significa apenas que mudamos tanto que agora conseguimos ver o que somos. e ser. “é preciso permanecer para mudar”, vc diz e eu concordo. eu também diria que precisamos mudar para permanecer. nada mudou desde que eles compuseram the boxer em 1968 ou desde que eles a cantaram no central park. em 81. embora tudo esteja diferente. now the years are rolling by me, they are rocking even me, i am older than i once was, and younger than i’ll be, that’s not unusual, no it isn’t strange, after changes upon changes, we are more or less the same…
não, eu também não acho estranho.
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Låt den rätte komma in

“Seja eu um pouquinho”. É só isso que Eli pede a Oskar. É só disso que um amor precisa. Não é tão difícil assim amar, e só que às vezes as pessoas estão entretidas demais consigo mesmas. Ou simplesmente não querem olhar. Evitam a decepção, como se pudessem evitar os dias de frio. Como se fosse melhor se proteger deles. Mas isso é para aqueles que têm expectativas demais. Que não estão realmente suscetíveis ao outro. Que não conseguem descobrir a beleza dos jardins secos nos tempos de neve. A vantagem de ser um garoto de doze anos que apanha na escola é a de não haver alarmes, nem julgamentos. Talvez seja mais fácil entender o que é amizade e amor de verdade quando vc já foi um deles. Porque viver no mundo das pessoas não-ideais é não precisar fazer perguntas demais e não precisar explicar. Simplesmente entender. Simplesmente aparecer para não passar sozinho uma noite escura. Dar-se mãos mesmo que isso não se encaixe em nada. E não se encaixar não muda nada. Tá tudo certo. Tá tudo certo entre aqueles que ficam em silêncio, nunca sabem direito o que dizer, mas acabam dizendo tudo só com um abraço. No mundo das pessoas não-ideais nós nos sentimos protegidos pela fraqueza do outro. Não duvidamos que o fantástico pode mesmo existir e desejamos incondicionalmente o real.
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